Episode Transcript
[00:00:06] Speaker A: Seja muito bem-vindo a mais um podcast do Automóvel Clube Portugal.
Eu sou o José Varela Rodrigues e neste episódio vou falar com o Nuno Ribeiro da Silva, especialista em temas energéticos, para percebermos qual é o momento atual na Europa e concretamente em Portugal, no mundo da energia, Porque há aqui algumas questões, desde há alguns meses, que suscitam várias dúvidas.
Nomeadamente, será que já estamos numa fase de crise energética? E relativamente ao preço dos combustíveis, será que vai haver algum momento num futuro próximo em que os preços estabilizam ou mesmo diminuem para um nível considerado mais razoável para o bolso dos consumidores portugueses? Algumas destas questões que vamos tentar compreender e encontrar alguma resposta.
Nuno, muito bem-vindo ao ACP.
[00:00:54] Speaker B: Muito obrigado, que eu muito gosto.
[00:00:55] Speaker A: Esta matéria da energia que nos traz aqui à conversa hoje começou, digamos assim, no final de fevereiro, quando os Estados Unidos, num ataque militar coordenado com Israel, resolvem lançar uma ofensiva contra o Irã. Na sequência desses ataques, o Irã decide, de alguma forma, bloquear o Estreito de Hormuz, um corredor vital para o comércio de petróleo e também de gás natural.
[00:01:22] Speaker B: O nosso Alfonso Albuquerque já sabia que era um ponto crítico.
[00:01:26] Speaker A: Exatamente. E neste momento passaram já três meses e entre negociações para umas eventuais tréguas, novos ataques, retaliações, o que é facto é que continuamos a viver aqui ou a assistir a uma situação de alguma forma pericilitante com o nível dos preços energéticos a continuar a subir, embora em algumas semanas, no caso dos combustíveis, que talvez são os preços mais visíveis para o consumidor num primeiro contacto, haja alturas em que há um abrandamento, há uma oscilação mais positiva, mas na semana a seguir volta a haver um agravamento.
Perante isto, qual é o momento atual?
Já podemos falar de uma crise energética? Já estamos nessa fase ou ainda não?
[00:02:13] Speaker B: Muito bem.
Muito obrigado pelo convite.
Bom, temos um problema sério.
Obviamente que ir ao Golfo Pérsico, onde a produção de petróleo e gás para exportação e, portanto, para ir alimentar outros mercados, para além do autoconsumo daqueles países, é cerca de um quinto do consumo diário de petróleo e gás a nível mundial.
Ir àquele golfo, criar um quadro de destabilização, é como entrar, digamos, no cofre forte do Banco Mundial e começar a mexer nas barras de ouro.
Portanto, há de facto um quadro de perturbação, de desestabilização.
Desde logo, inclusivamente, ataques a infraestruturas energéticas e fundamentais, como gasodutos, pipelines, unidades de carregamento de gás liquefeito, refinarias, etc.
que o Irã descobriu que realmente o estreito do Hormuz pode ser utilizado, que era estratégia que eles já sabiam, mas pode ser utilizado como uma fonte de receita se convencerem o mundo que aquilo é deles, que não é, e apagar portagens por cada navio que passa.
Seria, de facto, uma fonte de receita extraordinária como assim que é para a brisa. Mas...
Temos um problema grave que, digamos de alguma maneira, cria enorme perturbação em toda a logística mundial da produção, do transporte, da distribuição de petróleo e de derivados do petróleo.
Nesse sentido, Eu devo dizer francamente que estava preparado, quando há o arranque destas operações militares, para que pudéssemos vir a ter um aumento dos preços do rio de petróleo e do gás natural, com a importância, nomeadamente, em particular do Catar, e depois do que aconteceu com a Rússia. na produção de gás natural e na alimentação do gás natural, em particular para a Ásia, mas também para a Europa, até como substituto da Rússia para além dos Estados Unidos, poderíamos ter de facto um impacto nos preços francamente bem superior àquilo que temos de ainda verificar.
O impacto dos preços inclusivamente superior ao que ocorreu quando da invasão da Ucrânia. Relembro que o preço do barril de petróleo chegou a 146 dólares nessa altura.
[00:05:23] Speaker A: E agora o máximo é 126.
[00:05:26] Speaker B: E foi pontualmente, digamos que tem andado ali à volta dos 100, 100, 105, não tem passado dali, que é, relembro, uma situação de preços.
que muitas vezes, sem crise especial, militar, o que seja, ocorreu nos mercados. Bom, é melhor ser 70 para os importadores. Para os exportadores não, é melhor ser 100. Mas é melhor ser 70 do que ser 100. Mas temos vivido e convivido muitas vezes ao longo destas décadas e destes tempos mais próximos com preços nessa ordem de grandeza.
Já sei falar no gás natural, que na altura da Rússia chegou, a unidade que se mede é o megawatt hora em termos do custo de gás natural, chegou a valores na ordem dos 360 e 400 euros e que agora não passou dos 60.
Portanto, isto para dizer que temos um problema, é um problema sério, O problema será mais ou menos agudo, função da extensão desta desestabilização e deste nervosismo de não sabermos quando e como é que isto acaba.
E o segundo aspecto é, caladas as armas, o balanço das feridas que temos que lamber, das infraestruturas que foram destruídas ou afetadas.
Há um problema realmente, mas deixa eu dizer que a reação do mercado petrolífero, digamos, e da indústria petrolífera, do complexo petrolífero, tem sido surpreendentemente fria, objetiva e de alguma maneira eficaz.
Leia-se, e podemos se calhar falar nisso um bocadinho mais à frente, que uma parte significativa do petróleo e do gás, que entretanto deixou de chegar ao mercado mundial pelos problemas de hormus, nestas semanas, nestes dois, três meses, tem sido já substituída pelo aumento da produção e exportação por parte de outros países, nomeadamente da Bacia Atlântica, em primeiro lugar dos Estados Unidos, mas também da Venezuela, do Brasil, do Canadá e outras contribuições de países como Trinidad e Tobago e países africanos como a Nigéria, etc.
[00:08:04] Speaker A: Eu creio que foi a Agência Internacional de Energia que recentemente libertou um dado interessante que no fundo dizia que a cada cinco dias chegavam menos 100 milhões de barris de petróleo ao mercado global.
E no fundo, se calhar podemos estar a assistir, pegando nesta reta final da sua resposta, É um reequilíbrio. Ou seja, havendo aqui um desequilíbrio, talvez na oferta daquilo que se passava no estreito de Hormuz, outros países entram em ação e tornam-se mais protagonistas.
[00:08:37] Speaker B: Exatamente.
E no fundo...
é um resultado propriamente dos preços, em particular se tivermos em conta as características do chamado gás de xisto e petróleo de xisto, que levam hoje os Estados Unidos a ser o maior produtor e o maior exportador de petróleo e gás do planeta, é extraordinário.
O gás de schisto e as explorações de schisto são muito flexíveis e muito sensíveis ao preço.
Tipicamente, um furo de petróleo retirado do dito shale oil tem ali o break-even, o equilíbrio de custos-preço, nos 65 dólares.
Quando o preço vem abaixo desse valor, é muito fácil os produtores encerrarem a extração, porque economicamente não tem interesse.
Quando vai acima, começam a fazer contas e também fácil e rapidamente retomam a extração. É o que tem acontecido. Só os Estados Unidos, nestes dois meses e picos, aumentaram a produção e a injeção no mercado em cerca de 4 milhões e meio de barris de petróleo.
Portanto, há uma flexibilidade muito grande por parte da indústria petrolífera, não quer dizer que não estejamos, digamos de alguma maneira, a ir à dispensa buscar os pacotes de arroz e de esparguete que tínhamos lá guardados para uma emergência.
[00:10:18] Speaker A: Ou seja, continuamos vulneráveis.
[00:10:20] Speaker B: Continuamos vulneráveis, continuamos preocupados porque há de facto uma desestabilização geral, como dizia, das rotinas do complexíssimo e gigante mundo do petróleo.
mas tem havido capacidade de adaptação, e nomeadamente no acesso à matéria-prima. Talvez que venha a ser mais difícil rearrumar o puzzle no que respeita à alocação do transporte, a concentração de cerca de mil navios-tanque que estão atascados, digamos, dentro do Golfo e à entrada do Golfo, e toda a relocalização desses navios com as cargas que transportam para a distribuição no planeta, e em particular para a Ásia, que está a ser mais afetada, é um processo…
[00:11:25] Speaker A: É talvez a parte mais difícil do problema.
[00:11:27] Speaker B: É a parte mais difícil do problema.
[00:11:29] Speaker A: Mas há aqui uma outra questão que eu acho que é talvez das mais difíceis de resolver, é que apesar desse reequilíbrio, dessa capacidade de resposta face às necessidades da própria indústria, tem encontrado para continuar a haver oferta de matéria-prima, de petróleo, ao lado do consumidor, que continua a ver os preços energéticos neste momento a subir.
[00:11:56] Speaker B: Exatamente.
[00:11:57] Speaker A: E depois há aqui um efeito também de contágio em que já assistimos, de alguma forma, os dados dos gabinetes de estatística oficiais de cada Estado a indicar que os níveis de inflação já começam a ser afetados e os próprios bancos centrais, na Europa também, a admitir uma eventual subida dos juros. prolongando-se ainda mais este cenário de guerra, de conflito no Médio Oriente.
Onde é que vamos parar? Do lado do consumidor, onde é que isto acaba? Ou seja, pode haver aqui alguma forma de compensar o consumidor, de encontrar aqui mecanismos para os preços voltarem a ser de alguma forma mais comportáveis?
E já agora também, as medidas, tanto na Europa como em Portugal, que foram anunciadas e já algumas começaram a ser implementadas, Estão a ser as medidas corretas, estão a ser as medidas indicadas para combater este problema junto dos consumidores.
[00:12:59] Speaker B: Por partes.
De facto, todos estamos independentemente. na Europa, no nosso país, eu diria em geral no continente americano, na Bacia Atlântica, Europa, África, etc., não estamos, digamos, expostos a um problema de falta física. de matéria-prima e mesmo de derivados, apesar de haver alguns derivados, como se tem falado, e o impacto nesses derivados do petróleo a nível do preço tem sido maior do que noutros, no caso em particular do diesel e do combustível para a aviação. A Europa tem vindo a fechar sistematicamente refinarias que se têm deslocalizado precisamente para o Golfo Pérsico.
na vontade desses países também, em vez de exportarem matéria-prima, exportarem já produtos trabalhados, transformados e acrescentar valor às suas exportações. Mas se não temos grande preocupação relativamente a aspectos de ruptura física de abastecimento, temos impacto nos preços e daí ninguém nos tira, porque no mercado mundial do petróleo e gás não há ilhas higienizadas relativamente a esse impacto nos preços.
Como referi, temos menos do que imaginaria que poderia ser realmente o impacto nas cotações, mas temos de facto uma situação de preços relativamente altos àqueles que estávamos habituados, digamos, no pós-Covid, em que o preço do barril do petróleo andou ali à volta dos 70, 80 dólares.
[00:15:02] Speaker A: De alguma forma estabilizou.
[00:15:03] Speaker B: Estabilizou.
além de grande volatilidade que também pica os chamados traders a fazerem algumas apostas especulativas.
e portanto mantém ali quente os preços no mercado, de facto, como o petróleo, o gás, a energia, está em tudo o que fazemos, rapidamente infeta os preços de tudo e mais alguma coisa.
Já agora, muitas vezes com certo oportunismo e com certo corporativismo, aquilo passado uma semana desta situação. Se desencadear, enfim, já havia gente a dizer que as alfaces tinham sido impactadas pela crise do golfo. Esta questão dos preços do petróleo e do gás tem as costas largas, muitas vezes, para justificar o aumento dos preços de bens e serviços. Mas, como diziam os espanhóis, la que las hay, las hay e, portanto, de facto temos um impacto nos custos e, claro, sobretudo nas indústrias.
[00:16:21] Speaker A: As medidas encontradas, para de alguma forma responder a esse impacto, foram as corretas ou as possíveis?
[00:16:28] Speaker B: Eu diria as possíveis. É sempre uma grande polémica até que ponto é que os governos, nesta situação, devem contrariar o mercado.
E se o dinheiro que se gasta, que são sempre na ordem dos bilhões, porque estamos a falar de milhões de litros de gasolina ou de gás de óleo, estamos a falar de milhares e milhares e centenas de milhares, e isto para falar do nosso país, de garrafas de gás de petróleo, estamos a falar do gás natural, então qualquer apoio, qualquer entre aspas subsídiozinho que se dê, a qualquer imposto que se reduza, significa um impacto grande nas contas públicas, que também não estão famosas, não só no nosso país, como em geral nos países europeus importadores. Portanto, há sempre uma grande polêmica e houve, inclusive, estudos económicos a seguir ao impacto da invasão da Ucrânia e da explosão dos preços do gás e do petróleo, sobre a pertinência dos Estados enterrarem bilhões na subsidiação, que é no fundo um pouco meter-nos a cabeça debaixo da areia da realidade dos sinais que o mercado dá. Eu diria que As conclusões que se tiram mesmo desses estudos económicos é que, no imediato e no curto prazo, se não sabemos que essa crise se vai prolongar, é razoável haver um esforço, digamos airbag, para o choque que aparece nos preços não desregular, digamos, a estrutura de custos e a estrutura de preços no mercado.
Se o problema se prolonga, então aí, francamente, temos que, como se costuma dizer, cair na real e assumir que vamos sofrer as dores de preços mais elevados. que é, quer gostemos quer não, o sinal que o mercado nos dá.
Foi com o primeiro choque petrolífero, com o aumento em poucas semanas do preço do barril de petróleo de cerca de 5 dólares para cerca de 17, 18, 19 dólares, triplicou, que foi dado o sinal para, por exemplo, os construtores de automóvel começarem a trabalhar no sentido de motores de combustão e de desenhos de automóveis com muito maior eficiência, de deixarem de terem consumos de 12 litros aos 100 e passarem para os 5, 4 e menos até que hoje podemos encontrar no mercado. Portanto, nós não podemos, sobretudo, num produto em que na realidade nenhum país que controla tem o poder de controlar os preços, é de facto o maior mercado do mundo, é o mercado do petróleo, e ninguém consegue só por si dominar a dinâmica desse mercado, nós temos que assumir o que o mercado releva de escassez de oferta, ou também situações de excesso de oferta, que leva os preços a cair, e temos que lidar com isso. Como digo, pontualmente pode haver um esforço de intervenção para que o soco, neste caso, não seja tão violento, mas não é sustentável por longo tempo. No caso da Europa, dos 27 Estados-membros, há 16 que desencadearam algumas medidas de mitigação do impacto destes preços mais altos que estamos a viver.
Várias soluções, vários pensos rápidos, eu diria.
E eu julgo que é compreensível, como digo, desde que confirmemos que é sustentável pelos orçamentos de Estado, porque senão os orçamentos de Estado também a derraparem significa também pressão sobre os juros que os Estados têm de pagar pelas dívidas contraia.
Ao subirem os juros também infeta todo o mercado de custo do dinheiro, desde a casa que compramos até ao dinheiro que podemos pedir emprestado para fazer uma viagem.
[00:21:22] Speaker A: E o efeito de contágio é muito mais complicado de controlar do O problema em si.
[00:21:28] Speaker B: Exatamente. que... Portanto, embora talvez que alguns dos mecanismos não sejam os mais adequados, mesmo neste transitório de ajuda à dor, por exemplo, uma lição que se tirou é que eu quando estou, o caso também do IVA 0, O IVA0 é uma medida que tem em si alguma, provoca alguma desigualdade nos beneficiários.
Porquê?
Porque eu, se tenho um orçamento mais limitado, eu tenho um menor poder de compra e, portanto, os meus gastos são 100.
Eu, se tenho um maior poder de compra, Tipicamente sou um consumidor mais intensivo e os meus gastos podem ser de 300.
Ora, o Ivazer é cego.
Eu que tenho mais meios e gasto 300, beneficio do Ivazer nos 300, enquanto que... e com um encargo que isso traz para as contas públicas, para todos, enquanto que a pessoa que tem mais carências e só gasta 100, beneficia só sobre as 100, com um impacto menor nas contas públicas. Na política económica é advogado que não se tomem medidas, digamos, de caráter transversal generalista, mas que nestas situações existam medidas mais cirúrgicas, mais dirigidas, efetivamente, às pessoas que têm mais dificuldade e às empresas que também têm mais exposição à fatura energética nos seus custos de produção.
Portanto, tem que ser muito bem calculado, muito seletivo, quer na quantidade, quer no tempo, porque cada minuto que passa é mais uma dentada nos equilíbrios dos orçamentos dos Estados e não há pequenos almoços à borla.
O que nos endividamos agora vamos ter que pagar mais tarde com todos os efeitos em cadeia a nível de taxa de juros, de inflações, de contração da economia.
[00:23:55] Speaker A: Talvez desafiando-o aqui a fazer um pouco de futurologia, mas acredito que seja muito complicado no caso do mundo da energia.
No dia em que esta guerra no Médio Oriente terminar, de alguma maneira os preços energéticos acalmarem, abrandarem, é expectável que, por exemplo, no caso dos combustíveis, os preços voltem a valores mais comportáveis, aos valores de há um ano, por exemplo, ou não? Ou vamos assistir provavelmente a uma estabilização, creio que os valores agora andam ali em média perto dos 2 euros.
[00:24:32] Speaker B: Bom, haverá, não quero dizer que haja um impacto imediato.
mas haverá uma tendência a um abaixamento desses custos. Vamos lá ver.
Há vários parâmetros que, para além dos impostos, que é o maior, diga-se para
[00:24:52] Speaker A: trás, Portugal, então, é o maior.
[00:24:55] Speaker B: Exatamente, à volta de 50%, cerca de 43% para o gasólio e cerca de 50, 51% para a gasolina. Há vários aspectos que entram nos custos do que pagamos, digamos, na bomba.
É o preço do barril, que pesa cerca de um quarto no total, mas também o custo dos transportes, dos navios-tanque, nos pipelines, e aí por trás estão os seguros, os navios.
Enfim, e toda a cadeia. Transporte, a refinação, o armazenamento, a distribuição, tudo isso.
[00:25:38] Speaker A: E depois ainda a margem comercial, também, do próprio comercializador.
[00:25:41] Speaker B: Exatamente.
E os impostos.
[00:25:43] Speaker A: Os impostos, novamente.
[00:25:45] Speaker B: A má notícia no fim.
mas que entra com tambores.
Mas, sim, senhora, tendo uma situação... Aliás, dá uma maneira como se tenha ensaiado.
A Daniela dizia há bocado, os preços têm tido uma volatilidade, sobe e tal, ao som da última declaração do Presidente dos Estados Unidos. Diz, agora tive uma conversa com os iranianos e isto está a aproximar-se. Bom, o preço do barril cai, nunca vistas, em uma hora caem 15 dólares, 15%. O Sr. Trump, depois do almoço, está mal disposto e diz, eu vou desfazê-los e vão ver e tal e tal e tal. E o preço sobe e dispara. Portanto, isto dá nota de que Não estamos num momento com um problema de especial escassez.
Estamos com uma preocupação de se isto se prolonga muito tempo e ainda por cima até haver uma luz ao fundo do túnel.
Há o agravar da destruição de infraestruturas, desde os campos de petróleo até às terminais e aos pipelines e aos navios, etc. Se isso vem a acontecer, então aí estamos a pôr lenha para aquecer os preços.
Bom, portanto, digamos que hoje havia uma declaração convincente para o mundo que se tinha entrado no acordo e agora íamos lamber umas feridas, mas que não voltávamos a ser mauzinhos, digamos.
Claramente o preço do barril de petróleo vinha por aí abaixo.
Não quer dizer que se voltasse imediatamente aos preços antes do desencadeado conflito.
Porque vai haver, de facto, três, quatro meses em que desde logo há que repor, como um bocado no jogo da batalha naval, há que repor a logística de transporte que está atascada no Golfo no mundo. Há que repor estoques, sobretudo na Ásia, que foram sendo utilizados.
Porque houve também essas políticas, por exemplo, na Europa, nesta altura, numa situação normal, estaríamos a fazer compras de gás natural para refazer o armazenamento para nos prepararmos para o inverno do próximo ano.
E a União Europeia deu a orientação de dizer, bem, não vão já, agora que acabou o tempo frio, não vão já repor os toques na despensa.
para não pôr mais pressão no mercado.
[00:28:54] Speaker A: Exatamente.
[00:28:55] Speaker B: E esperem, aguardem, vêem se isto passa e então vamos reconstruir as reservas para o inverno com mais calma. Portanto, haverá logo um abrandamento, por certo, na cotação, até porque Depois entrava-se em detalhes do mercado, os traders fizeram compras de futuros a preços mais elevados, que num contexto e num ambiente político e geoestratégico que se leia como mais seguro e mais calmo, não querem ficar com posições que…
[00:29:27] Speaker A: Que os fragilizam, de alguma forma.
[00:29:29] Speaker B: E que lhes podem trazer prejuízos.
[00:29:31] Speaker A: enquadrar esse pormenor, é que nesta área de compra e venda de matéria-prima, neste caso do petróleo, estamos sempre a falar daqui a três, seis, nove meses, um ano. Nunca é para o dia de amanhã, e isso obriga a jogar aqui com muita planificação.
[00:29:51] Speaker B: Exatamente, e com risco das obrigações que são contraídas pelos traders, pelos operadores do mercado do petróleo, quando assumem um determinado preço a que vão pagar o barril do petróleo daqui a seis meses ou daqui a um ano.
E tenha-se presente, já agora só uma curiosidade, não temos muito tempo para entrar em detalhe nisto, mas o volume de operações financeiras à volta do petróleo é 93%, pelo menos, acima do petróleo físico que efetivamente é transacionário, chamado petróleo branco, ou seja, compra-vende-papel e, portanto, a especulação, de alguma maneira, que é feita nesse mercado, que é o maior mercado do mundo é extremamente importante e muito sensível a efeitos imediatos quando muda a conjuntura e a perceção dos riscos que se está a correr. Mas, portanto, sim, haverá, por certo, um retirar de gás. ao que tem incendiado de alguma maneira, ou pelo menos aquecido os mercados, que não quer dizer que se volte imediatamente porque há todas as outras componentes, refazer estoques, recuperar refinarias, realocar a logística de transporte e os navios a nível dos oceanos e dos mercados, em particular da Ásia, isso levará ainda alguns meses, mesmo na altura em que se calham as armas, e portanto não viremos imediatamente para presos a finais de fevereiro, antes do conflito se desencadear.
[00:31:54] Speaker A: Nuno, muito obrigado por esta conversa e pelas suas explicações, acho que todos nós e quem assistiu esta nossa conversa pôde ficar a compreender um pouco melhor o cenário energético, digamos assim, concretamente a questão dos combustíveis.
Vou dar então por finalizada a nossa conversa. Muito obrigado mais uma vez, Nuno. Quanto a si que esteve a assistir, muito obrigado também por ter estado desse lado a assistir ou a ouvir a nossa conversa. Já sabe, pode encontrar este e outros podcasts no site do Automóvel Clube Portugal e também nas plataformas Spotify, Apple Podcasts e YouTube.
Muito obrigado e até uma próxima.