"Memórias dos anos 80": o boom do design num país em transformação

Episode 109 December 23, 2025 00:28:25
"Memórias dos anos 80": o boom do design num país em transformação
ACP - Automóvel Club de Portugal
"Memórias dos anos 80": o boom do design num país em transformação

Dec 23 2025 | 00:28:25

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Show Notes

No sétimo episódio do podcast "Memórias dos Ano 80", o designer André Clemente expõe a sua experiência e visão de uma área que se modernizou, redescobriu e ajudou a mudar Lisboa e o país numa fase de transformação.

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Episode Transcript

[00:00:05] Speaker A: Sejam bem-vindos a mais um podcast do Automóvel com Portugal. Sou Mário Vasconcelos e hoje temos como convidado o André Clemente, um designer gráfico que iniciou a sua atividade profissional na década de 80. André Clemente, muito obrigado por ter aceitado o nosso convite. [00:00:18] Speaker B: Obrigado eu pelo convite. Ideias, algumas histórias das nossas aventuras do design daqueles animados anos 80. [00:00:27] Speaker A: Iniciou a sua atividade justamente nos anos 80. O que é que mais recorda de Lisboa dessa época? [00:00:35] Speaker B: Lisboa dessa época? Bem, eu tinha voltado ao Brasil e achava Lisboa, apesar de tudo, uma cidade animadíssima. muito em transformação, portanto nós estávamos a passar por um período, digamos que, de uma pequena revolução, do início da revolução tecnológica que veio com os computadores, com o advento do computador, embora no ateliê Inicialmente, ainda, se trabalhasse à moda antiga, com os estiradores, com as réguas paralelas, com os quadros, com os x-atos, enfim, tudo aquilo era de calcado à mão, era cortado com tesouros, portanto ainda era... Foi nessa transição, portanto, uma fase mais artesã, digamos assim, ou mais com a utilização das nossas mãos, não é? E não tanto do computador. Foi nessa época que eu cheguei ao design, por assim dizer. Um bocadinho antes, mas antes, nessa época. [00:01:44] Speaker A: Escolheu uma área, justamente, que nessa altura sofreu uma grande viragem, porque começaram a aparecer os primeiros cursos especializados. Em Lisboa onde é que esses cursos serão ministrados? [00:01:58] Speaker B: Pois, é interessante falar disso. Eu estou mais ligado ao design logo por ligação familiar, ou seja, o meu padrasto já era designer e terá feito um dos primeiros cursos em Londres em volta dos anos 60 e isso influenciou-me imenso. Em Lisboa, tínhamos o IAD, ali na Rua Capelo, onde eu fiz o curso que depois acabei na Rua do Alcrim, no Palácio na Rua do Alcrim. Havia as Belas Artes, o curso das Belas Artes, esse sim, porque o curso do IAD nem era um curso de licenciatura, era um curso médio. As Belas Artes, sim, havia um curso de licenciatura em Design e havia um curso no Porto, e não havia muito mais. Portanto, foi por aí que se deu o início da minha formação de design, para além da que eu já trazia de casa, por assim dizer. [00:02:51] Speaker A: Eram tempos muito efervescentes, não eram? Para além de que eram escolas de arte, dedicadas à arte, e também pelo facto do design gráfico começar a dar os seus pontos. [00:03:02] Speaker B: Era a descoberta do design. Ou seja, Não éramos muitos na altura, claro que já tínhamos boas referências, já haviam designers referência do antigamente, como, por exemplo, posso citar o Sebastião Rodrigues, o grande Carlos Rocha, que tinha uma um gabinete de design chamado Letra, que fez muito sucesso, o próprio Henrique Caillat. Portanto, haviam já alguns, e muitos outros, que provavelmente teriam feito o seu percurso um pouco nos seus gabinetes ou formação lá fora. Mas sim, começou-se a democratizar, por assim dizer, o design na escola e foi sim, senhor, um período muito interessante, muito eficiente. [00:03:51] Speaker A: Essa profissionalização também ajudou à modernização das técnicas gráficas e à interpretação de novas abordagens estéticas que na altura também estavam a surgir. [00:04:03] Speaker B: Pois, repara, nós estamos no advento da introdução do computador. [00:04:09] Speaker A: Foi em 84, se alvo erro, não foi? Pelo menos o início com o Macintosh. [00:04:14] Speaker B: Sim, com o Macintosh. Não sei se terão chegado cá tão cedo assim, mas... Mas sim, sem dúvida, eu lembro-me, recordo-me bem, eu não comecei com o Macintosh, embora obviamente que rapidamente passei para o Macintosh, comecei em PCs, haviam programas todos nós utilizávamos e que foram criar um grande impacto na indústria como o Photoshop, o Freehand, o CorelDRAW, o Pagemaker, todos esses programas que vieram transformar um bocadinho a maneira como se trabalhava. Não quer dizer que nós não estivéssemos ainda muito agarrados àqueles processos todos analógicos que, no fundo, foram a nossa formação e que estávamos, efetivamente, quase que diria eu, ligados. É essa época do corte de papel, como disse, do calque de letra, das máscaras, do aerógrafo, das primeiras impressoras a cores, porque também começaram a chegar impressões a cores. Portanto, sim, foi uma época de transformação. [00:05:30] Speaker A: Mas o André, esses processos analógicos também... foram muito importantes durante ainda um tempo. Na junção com o que já era o início do digital foi muito importante. [00:05:42] Speaker B: Não se deu uma transição repentina de um meio para o outro. Não. Muitas coisas... E houve quem resistisse. Quem resistisse, uma natural resistência, ao computador. [00:05:56] Speaker A: Mesmo os mais novos que estavam a formar-se? [00:05:59] Speaker B: Sobretudo os mais velhos. Eu próprio tive alguma resistência ao computador, quer dizer, nem achava que aquilo fosse durar ou fosse conseguir perdurar no tempo, como acabou por ser, de revolucionar na dimensão que foi. [00:06:16] Speaker A: E essa nova geração de designers gráficos, da qual faz parte, tinham necessidade de estar numa constante troca de ideias Entre os jovens, é claro. [00:06:27] Speaker B: Havia pouco fórum, nessa altura, diria eu, entre pares, não é? Porque os gabinetes eram poucos. Eu recordo-me do nosso, o nosso era um dos principais. Pelas razões que já referi do nosso diretor, O Zé Moura Jorge ter uma grande capacidade comercial e termos conseguido, de facto, uma intervenção forte nos setores bancário, de jogo, de turismo e por aí afora. Lembro-me da Novo Design, que também foi uma empresa que, nessa altura, começou a dar os seus primeiros passos. Nós, como jovens, era um pouco uma aventura, era um pouco um desconhecido. Não havia... íamos ali a umas... Na Baixa, umas livrarias, ver uns livros, não havia internet, portanto eram uns fóruns um bocadinho, digamos que eu diria, naives, vá lá. Estávamos no começo. [00:07:27] Speaker A: E um bocado ainda tímidos, não era? [00:07:29] Speaker B: Tímidos, exato. [00:07:30] Speaker A: E nesta Lisboa dos anos 80, onde é que tinham, assim, sítios preferidos para descontraírem, para estarem à conversa? [00:07:38] Speaker B: A noite Lisboeta dos anos 80 era a loucura total. Não é que nós fizéssemos... Aliás, nós fazíamos muitas noitadas. Os gabinetes de design, como os gabinetes de publicidade, têm essa semelhança entre si de facto de terem deadlines apertados e fazíamos muitas noitadas. Não tínhamos muito tempo para... para sair à noite, mas quando tínhamos, e fazíamos também muitas vezes, lembro-me da noite portuguesa que, invariavelmente, começava no bairro Alto, casas conhecidíssimas como os Teus Pastorinhos, o Fraja, o Alcarina, e depois descemos ali para baixo, para o Crelin, até o Alcântara-Mar, até às 5, 6, 7 da manhã, como se calhar o Mário se recordará também. [00:08:26] Speaker A: Muito bem. Em termos de trabalho, mercado de trabalho, que projetos é que começaram a surgir ou a pegar neles? Institucionais, editoriais, culturais, foi um pouco de tudo. Quem é que investia mais nos novos designers? para realizar projetos? [00:08:46] Speaker B: Bom, o setor bancário sem dúvida teve uma grande dinâmica, não é? Porque também foi um setor que necessitava de se transformar. Eu lembro-me ainda das antigas agências, como por exemplo a da Paço do Brasil, as antigas agências onde se entrava tínhamos um balcão com milhares de gavetas atrás, não é? Portanto, vinha de fora, vinha da América, de Espanha também, a necessidade de uma mudança. E nós, que em Portugal pensamos ter começado logo com o BCP num aspecto não ainda tão tão virado para um público tão jovem. Eu não diria que era só um público tão jovem, era também uma geração que precisava de um modelo que fosse mais simples, menos burocrático, não é? E, portanto, os bancos também tiveram que trabalhar a imagem a esse nível, não é? começaram a nascer muitas agências, as agências começaram a ser muito mais, muito mais pequenas, mas mais autónomas. [00:09:54] Speaker A: Aliás, a proliferar pela cidade naquela altura. Estamos a falar da banca e o André... Foi autor de vários logótipos da banca que marcaram muito a época. [00:10:08] Speaker B: É verdade, é verdade. Posso citar alguns, por exemplo... E até podemos vê-los, porque eu sei que trouxe alguns exemplos. Posso começar pelo exemplo do Banco Espírito Santo e Comercial de Lisboa. Que já era um banco antigo, que é um banco que podemos dizer que tinha uma imagem gráfica estilo sigla, não é? Mas era uma sigla complexa, com o B, o E, o S, o C e o L. E que nós propusemos ao banco uma redução do nome porque naquela altura, enfim, a velocidade das coisas já começavam a ter uma velocidade diferente, portanto não fazia sentido estar a chamar o nome de um banco com sete nomes, portanto o Banco Espírito Santo e Comercial de Lisboa passou a BES. Banco Espírito Santo e a sua sigla também passou a ser uma sigla só com o Equus, no fundo uma adaptação da marca antiga. As cores, embora numa primeira fase tivessem permanecido aqueles verdes mais densos e os dourados, numa segunda fase transitaram para verdes mais suaves, mais simpáticos. [00:11:27] Speaker A: Pode mostrar-nos exemplos desse projeto? André, esse é o esboço, não é? [00:11:33] Speaker B: Sim, como vê, Mário, isto é, no fundo, atrás temos o desenho antigo e à frente já a construção do novo desenho. Aqui um em comparação com o outro. [00:11:46] Speaker A: Tanto o novo é o da direita, que é esse. [00:11:48] Speaker B: Exatamente, o novo é este. A tipografia também mudou. Já começavam a surgir também manuais normas mais complexos para o cliente e aqui as primeiras aplicações em fachada, porque a sinalética também era uma coisa muito importante. [00:12:10] Speaker A: E depois houve o outro banco que nasceu nessa altura, que é a Nova Rede, que fez muito, muito sucesso. [00:12:17] Speaker B: A imagem da Nova Rede não foi concebida por mim. O BCP, o Banco Comercial Português, era nosso cliente, mas na altura das decisões de transformação de marca haviam concursos Eu ganhei um, perdi outro, esse da Nova Rede foi ganho por um espanhol. Mas o que é que... A Nova Rede foi um banco de facto revolucionário a todos os níveis, todos nós queríamos ter conta na Nova Rede, sobretudo a nossa faixa etária, mas... mais jovem, mas a sinalética da nova rede não se via. Não se via porquê? Porque o logotipo, o símbolo que foi criado era um pequeno cometa, não sei se se recorda, tinha uma estrelinha e aquelas rastros. é seguir em verde e vermelho, mas a sinalética desenvolvida era no fundo uma placa branca com esses dois bonequinhos na ponta e não tinha visibilidade. Então o que é que nós fizemos? Isso sim foi muito impactante. Também nessa altura, vá lá, os canons de design não permitiam que, no fundo, se mexesse muito na base da marca, na base do logotipo, por razões históricas e de evolução natural do design. Mas nós arriscámos e fizemos uma aproximação, um zoom-in, vamos dizer assim, de maneira a simplesmente destacar um pequeno detalhe da marca e enchemos a fachada com toda essa alegria de cor, e de facto Lisboa de um dia para o outro, porque o BCP e depois os outros bancos começaram-se a automatizar, ou seja, a fazerem muito rapidamente essas suas transições visuais, o BCP nisso foi rei e depois todos os outros o acompanharam, e as mudanças eram muito rápidas, fazíamos um teste piloto, da nova rede foi ali ao pé do primeiro McDonald's da Avenida da República e depois espalhou-se pelo país inteiro. No fundo foi isto que nós fizemos. Uma fatia da marca e com isto preenchemos parte da sinalética onde era suposto, se fosse necessário repetíamos os elementos. mas de facto teve um enorme impacto. [00:14:44] Speaker A: No fundo nós estamos a falar de identidade visual. [00:14:46] Speaker B: Por outra aqui curiosa que penso que vocês também se recordaram. [00:14:50] Speaker A: Essa, exatamente. Acho que toda a gente passou por esta frase de ter a caderneta. Isso também é anos 80. [00:15:00] Speaker B: Sim, sim, sim. [00:15:00] Speaker A: Como estava a dizer, estamos no fundo a falar de identidade visual. Para que ela resulte, quais são os aspectos que têm que bater certo? [00:15:12] Speaker B: Em primeiro lugar, obviamente, ela tem que ser original. Ou seja, ela tem que nunca ter existido preferência ou parecida. Há lá, um bocadinho parecida ainda vá, porque nada se constrói do nada. Portanto, nós somos sempre inspirados por alguma coisa. [00:15:25] Speaker A: Goiás foi uma evolução, não partiu do zero. [00:15:29] Speaker B: Não, nada parte do zero. Repare, Mario, nada parte do zero. Pode-se fabular que é assim, mas não é. No fundo, nós somos todos influenciados por coisas que já vimos antes ou até por coisas que gostamos de escutar na altura e aí surge um momento criativo em que de facto conseguimos produzir algo que ao mesmo tempo seja único, diferente, que ao mesmo tempo quem o visualize, sinta que está ali qualquer coisa com que ele se identifique, aquilo que não se via antes, que não estava presente antes. Portanto, o bom design de identidade é um pouco o design da descoberta, é descobrirmos o que é que o designer pretendia e fez. E isso é... No fundo, são os dois grandes pilares de uma boa identidade visual. Claro que nada disto funciona se o dono da empresa, o CEO, não aprovar. Ou seja, costumo às vezes fazer este paralelo com o artista, que no fundo trabalha para si próprio. Nós não. Nós somos artistas, num sentido em que também somos criativos, mas estamos sempre dependentes de agradar e ainda bem, da direção da empresa. [00:16:49] Speaker A: Era complicado a receptividade? [00:16:52] Speaker B: Eu sempre tive uma taxa de sucesso muito grande, portanto eu vou aqui não deixar a humildade um bocadinho de lado. Claro que sim, havia adaptações, haviam diretores que procuravam Basicamente, Mário, isto é muito simples. Ou se gosta ou não se gosta. No fundo, é basicamente as adaptações são sempre remendos que não vão dar em nada. E pronto, nós quando geralmente fazíamos as apresentações íamos bem preparados e tínhamos uma muito grande taxa de aceitação. Ou então não. Nas raras vezes que isso acontecia, tínhamos que voltar para o atli e no fundo começar de novo. [00:17:36] Speaker A: Ainda predominava muito uma mentalidade conservadora. [00:17:39] Speaker B: Não, eu penso que a geração de diretores, estou a falar do Jardim Gonçalves ou mesmo do... Enfim, gostava muito... Agora fala-se muito dele, do Ricardo Salgado. Enfim, eram diretores que... E de outros bancos. Que tinham uma mentalidade muito virada para as coisas que tinham visto nos EUA, as coisas que tinham visto pelo resto da Europa. Não, penso que nessa altura havia mesmo... [00:18:09] Speaker A: Uma cultura, não é? [00:18:10] Speaker B: E uma convicção de que não valia a pena estarmos agarrados ao passado. Tínhamos mesmo de andar para a frente. [00:18:16] Speaker A: Portanto, isso ajudava-vos bastante no vosso trabalho. [00:18:18] Speaker B: Sim. [00:18:19] Speaker A: E a vontade de consumo que estava a crescer nesta altura, depois do 25 de Abril, anos 80, começou... o consumo começou a aumentar. Isso também vos ajuda? [00:18:31] Speaker B: A parte comercial ou a parte marketing e publicidade é uma coisa que é bastante distinta do design, ou seja, Obviamente que o capitalismo, o consumismo, já se faziam notar de uma forma mais evidente, mas os parâmetros do design não são medidos em vendas de unidades. Não vendemos mais ou menos platas de sardinha, simplesmente queremos é que o nosso público consiga ver o que é que não estava, que agora está e o que é que aquilo representa, e captar mais pessoas para este banco ou, por exemplo, para o casino de Estoril. Portanto, há uma diferença entre consumo e identidade, nesse aspecto, entre o design e a publicidade. Mas, sim, com certeza que havia, como sou eu, já ia haver mais consumo, um consumo mais desvairado. [00:19:29] Speaker A: E onde é que os jovens designers gráficos e humbus, porque isto é uma área em que exige uma constante atenção, informação, saber, estar a olhar, a ter um olhar muito atento para aquilo que se passa à nossa volta, onde é que nessa altura procuravam informação? Porque eu lembro... de haver uma livraria e tabacaria no Centro Comercial Paládio, na Avenida da Liberdade, logo junto aos restauradores. E é riquíssima. Toda a gente ali assinava e encomendava. [00:19:59] Speaker B: Jornais, revistas internacionais, não tenha passado por lá. [00:20:07] Speaker A: E havia outras, mas lembro-me mais desta. [00:20:08] Speaker B: A Bertrand também tinha algumas coisas. Havia livros que eram publicados lá fora e que nós tínhamos que os comprar, porque não tínhamos como os ver na internet. Estou-me a lembrar, por exemplo, dos livros da Grafis, etc. Portanto, não havia muito como nos atualizarmos sem adquirir livros. Pronto, livros. adquiriam-se nessa altura. [00:20:35] Speaker A: E revistas também, não é? [00:20:36] Speaker B: E revistas, e revistas, e livrarias, basicamente. Ou então em visitas ao estrangeiro, pronto, eu lembro-me de quando podia sair, ia às FNACs de Paris, ou seja lá onde for, ou em Londres, ver de facto livros. Era por aí que nós estávamos mais atualizados. Posso lhe contar uma história muito rápida. e muito engraçada, que tem a ver com o tal do Banco 7. O Banco 7 é um banco, não sei se se recorda, o Banco BCP lança sem ter nome, ou seja, uma missão impossível, uma tarefa impossível, ingrata para qualquer designer tentar fazer uma imagem de identidade para um produto que não tem nome. E quais eram as características do produto? Bom, era um banco sem agências, não tinha agências, era um banco que funcionava 7 dias por semana por telefone. Pronto, a grande novidade aqui era o facto de ele estar ligado ao telefone. [00:21:35] Speaker A: Era uma coisa moderníssima, não é? [00:21:36] Speaker B: Era uma coisa... Olha, e o André. [00:21:38] Speaker A: Tem aí o logótipo também. [00:21:39] Speaker B: Basicamente, o que é que fizemos? Fui pegar os 10 dígitos dos telefones de discos analógicos, do antigamente, e este efeito só foi possível fazer já com o advento do computador, porque fazer uma distorção em perspectiva tão complexa à mão, em desenho de geometria, É difícil, é humoroso. Enquanto que nesta altura, tendo uma imagem base, que era uma imagem de uma circunferência com 10 bolinhas, em 5 segundos conseguiu-se fazer o efeito. E pronto, foi um efeito que foi lançado. [00:22:17] Speaker A: E as pessoas percebiam que isso associavam... Essa sequência de bolas a um disco de um telefone analógico. [00:22:25] Speaker B: Eu não sei o que é que elas associavam exatamente. Foi essa a minha intenção. [00:22:28] Speaker A: Porque fecha, não é? [00:22:29] Speaker B: Mas o que é curioso é que o nome do banco que surge uma semana depois da produção desta marca vem-se a chamar Banco 7 e a imagem parece um 7. Curiosamente. Ou seja, uma feliz coincidência. [00:22:44] Speaker A: A inglesa tem o traço, não é? [00:22:46] Speaker B: Tem o traço, exatamente. Portanto, é histórias de design que acontecem. [00:22:51] Speaker A: Gostava que comentasse este curto parágrafo, esta afirmação. Os anos 80 foram incríveis para o design em todas as áreas, da experimental às tipografias, passando pelas cores e composição. Fizeram-se tendências e movimentos muito marcantes. [00:23:05] Speaker B: Vamos lá ver. Nós éramos poucos. O boom do design começou nessa altura, a finais dos anos 80. Depois houve uma explosão até excessiva, talvez eu diria, de jovens formados em design, mas a verdade é que nas várias áreas, ao bocadinho esqueci, estava a mencionar o Jorge Silva, que é mais da área do design editorial, em várias áreas sempre tivemos pessoas que se destacaram na tipografia, portanto, lembro-me daquele jornal do Miguel, como é que se chamava aquele jornal? O independente que também tinha na capa a própria estrutura gráfica já muito para a frente, não é? Portanto, foi um período de avanço, não é? Foi um período de evolução muito interessante. Eu diria que sim, foram tempos emocionantes e que geraram designers emocionantes, interessantes também. [00:24:10] Speaker A: E houve movimentos artísticos que influenciaram também a evolução do design gráfico. Podia-lhe falar um bocadinho sobre o que é o movimento Memphis? foi um dos mais importantes para o design gráfico moderno. [00:24:27] Speaker B: Eu vou confessar-lhe que eu estou mais ligado à escola suíça. [00:24:32] Speaker A: Porque esta é americana, não é? As origens do Memphis. [00:24:34] Speaker B: Esta é americana, até por um bocadinho, pelo que eu lhe expliquei, era de acesso mais fácil. Nós não tínhamos tanto acesso ao que se passava nos Estados Unidos, que era um bocadinho mais longe. Mas sim, Foi um movimento que, como outros, veio simplificar ou dar ao design características mais lineares. O design tem fases. Eu lembro-me... Uma época em que todos desenhávamos espirais, coisas cósmicas. O design também tem umas fases ou mais quadradas ou mais triangulares. Depois começámos a cortar letras. Enfim, também se pode dizer que há fases no design. [00:25:25] Speaker A: A figura geométrica era muito utilizada nos anos 80. [00:25:29] Speaker B: Sim, exatamente. A figura geométrica porque... Lá está. É sempre uma tentativa de dizer o máximo com menos possível, não é? E é isso que nós tentamos transmitir. [00:25:41] Speaker A: Dizer mais com menos, não é? [00:25:43] Speaker B: É, fazer mais com menos, exatamente. E pode ser um princípio do design, não é? Um princípio da economia, seja lá do que for, e o design também o é. Ou seja, que mensagem é que nós conseguimos transmitir, com a mesma intensidade, com a mesma força, e às vezes basta uma coisa muito simples para transmitir essa mensagem. [00:26:00] Speaker A: E essas figuras geométricas sempre nessa altura associada aos cores florescentes, não é? [00:26:07] Speaker B: O design é sempre muito geométrico. Um suave ver, sim, uma palete de cores mais vibrantes, que terá talvez até tido origem na nova rede, mas mesmo o Banco 7 depois também segue um bocadinho essa tendência, ao que chegámos ao extremo do milénium hoje em dia. na... Mas sim, sim, é paleta de cores e agora, enfim, talvez esteja mais novamente suave. [00:26:37] Speaker A: E também existia um outro movimento que era muito falado nos anos 80, até na moda e na decoração, o movimento retro. Era uma coisa que... Sim. Havia retro em quase tudo, não é? [00:26:49] Speaker B: Sim, mas no design menos. Havia muito retro na parte de interiores, de decoração, de arquitetura. [00:26:57] Speaker A: No grafismo menos, penso. [00:26:58] Speaker B: Eu fiz menos porque, lá está, o que o cliente queria era uma coisa que o projetasse para a frente, o que o projetasse para o futuro, que fosse uma imagem que transmitisse modernidade. Portanto, não podíamos usar elementos do passado. [00:27:15] Speaker A: Mas depois os interiores eram influenciados. [00:27:18] Speaker B: Sim, poderá-se dizer que há aí um pouco de um contrassenso entre o que seria a comunicação visual corporativa, vamos lá dizer, do que seria o habitat de restauração ou de casa que se promoveu naquela altura. É verdade, é verdade. Eu lembro, por exemplo, Como também se lembrará do Alcântara Café, que tinha aquela decoração toda retro, construtivista, etc., um espaço belíssimo, mas de facto pertencia um pouco a um outro tempo, quase quando nós entrávamos ali dentro, muito moderno, muito diferente. Mas creio que aí os paralelos... não se podem fazer os mesmos paralelos que estávamos a fazer na evolução do design de identidade. [00:28:09] Speaker A: André Clemente, muito obrigado por ter vindo a estúdio. E obrigado a quem nos acompanhou também nesta conversa. Podem seguir-nos no Spotify, Apple Podcast e nas redes sociais do ACP.

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