"Viajar é para todos": os desafios que uma pessoa surda enfrenta

Episode 110 December 23, 2025 00:28:39
"Viajar é para todos": os desafios que uma pessoa surda enfrenta
ACP - Automóvel Club de Portugal
"Viajar é para todos": os desafios que uma pessoa surda enfrenta

Dec 23 2025 | 00:28:39

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Show Notes

Mariana Bártolo nunca ouviu um som na vida, mas isso não a impede de exercer medicina. A primeira médica surda e nativa de linguagem gestual do SNS é a mais recente convidada do "Viajar é para todos", de Sofia Martins, autora do blog "Just Go By Sofia". Este Podcast conta com a participação da intérprete de língua gestual Sofia Figueiredo.

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Episode Transcript

[00:00:02] Speaker A: Viajar é para todos é um podcast do Automóvel Clube Portugal que vem mostrar que viajar é mesmo para todos, independentemente das condições e características de cada um. Eu sou a Sofia Martins, sou autora do blog Just Go By Sofia, Sou paraplégica, adoro viajar, já visitei mais de 40 países e concretizei o sonho de dar uma volta ao mundo. Aqui trago convidados com outras visões e outras necessidades, esperando contribuir para que outras pessoas descompliquem na hora de escolher o destino e partir. Este podcast tem o patrocínio da Max Finance. [00:00:40] Speaker B: Olá, bem-vindos ao podcast Viajar é para Todos, um podcast do Automóvel pelo Portugal. A minha convidada hoje é a Mariana Bartolo. Olá Mariana, obrigada, bem-vinda. Olá Sofia. Hoje temos também a companhia da Sofia. Mariana é surda e a Sofia vai ajudar-nos a comunicar. Obrigada pela tua disponibilidade. Vamos fazer o check-in? Vamos para onde hoje, Mariana? [00:01:12] Speaker C: Vamos viajar para a Austrália. [00:01:15] Speaker B: Muito bom, boa escolha. Não conheço e queria muito também conhecer. Mariana é médica, fotógrafa, cozinheira, leitora, escritora e viajante, claro. E eu acrescentaria a esta inspiradora lista uma grande ativista pelos direitos das pessoas com deficiência. e pioneira, já que é a primeira médica surda nativa de língua gestual portuguesa a exercer no Serviço Nacional de Saúde. Tornou-se uma referência pela sua coragem e pelo modo como quebra barreiras e abre caminho para os outros. Acima de tudo, a Mariana é uma mulher cheia de mundo. Mariana, é um prazer enorme receber-te aqui. Vamos falar de viagens. [00:02:06] Speaker C: É um prazer também para mim estar aqui nesta conversa. E o tema das viagens interessa-me bastante. E qualquer oportunidade que eu tenha, eu saio. E por isso esta conversa tem um tema tão agradável. [00:02:18] Speaker B: Mariana, sei que és uma apaixonada por viagens. Fala-me um pouco de como é a Mariana viajante. Quais são as suas viagens preferidas? Se costumas viajar sozinha, como é que nasceu essa paixão das viagens? Fala-me um bocadinho. Sim. [00:02:37] Speaker C: Então, eu nasci numa família apaixonada por viajar também e isso influenciou-me desde logo, desde cedo. E a primeira viagem de avião foi logo com dois meses de idade, ainda muito bebé. A minha mãe trabalhava na altura em Paris e então eu fui com a minha mãe e também com a minha avó, que tomava conta de mim lá em Paris. E a minha mãe era cantora de ópera e por isso ia muitas vezes a Paris e então foi a primeira viagem que fiz e depois a partir daí foi sempre a viajar e eu já perdi a conta há quantas viagens fiz logo nos primeiros meses de vida e depois eu própria já com estas memórias das viagens também acompanhando depois o meu pai, meu pai também gosta muito de viajar. Fomos a vários sítios em todo o mundo e pelo facto de eu ser surda o meu pai também me queria mostrar o mundo, mostrar as diferentes realidades que existem. A minha educação foi um bocadinho também com base nestas viagens e eu acho que foi de facto muito importante e positivo para mim e foi outra forma também de eu conhecer o mundo que senão de outra forma não poderia fazer. E as viagens possibilitaram-me tudo isso e a partir daí desde toda a minha vida quis sempre conhecer o máximo possível do mundo para aprender também muito mais de outras realidades. [00:03:49] Speaker B: E costumas viajar sozinha, pelo que percebo, costumas viajar então acompanhada? [00:03:55] Speaker C: Com o meu marido costumamos viajar os dois, gostamos muito de viajar. E agora nos últimos 10, 12 anos tenho sido acompanhada por ele, mas de tempos a tempos também viajo sozinha e é uma energia diferente, claro, fazê-lo, porque a pessoa vai para onde quiser, sem combinar nada, por si própria, vai por aí, perdida. E isso é algo que me apraz bastante. E depois, por outro lado, quando estou acompanhada e quando a companhia é boa, também é muito bom e gosto também. Nós temos gostos muito parecidos. Cada um tem o seu espaço, obviamente. Um vai para onde quiser, eu também vou às vezes para outros sítios. Mas acompanhar também é muito bom. [00:04:32] Speaker B: E quais são os destinos preferidos? [00:04:36] Speaker C: Agora, ultimamente, eu tenho ido muito a Marrocos. já por ser perto e as viagens também são baratas, as compras também são agradáveis lá e por isso costumo ir. O ano passado fui, este ano outra vez, em breve, e de facto é um local que me identifica bastante, gosto bastante, muito. E é perto. [00:05:00] Speaker B: Por acaso eu vi no teu Instagram uma das tuas viagens a Marrocos e despertou-me bastante curiosidade porque eu vi que foste com um guia local e aí vem um bocadinho aqui a minha dúvida que é a língua gestual não é igual em todos os países, cada país tem a sua língua Não sei se é uma língua internacional. Como é que é? Como é que é essa adaptação, se é que é uma adaptação? [00:05:39] Speaker C: Na viagem a Marrocos no ano passado foi de facto uma coincidência porque nós tínhamos reservado a viagem com bastante antecedência e eu gosto muito de ir ao deserto e há ali diferentes agências, digamos assim, guias e por aí a fora que têm uma oferta imensa. E eu andei a pensar em reservar uma, porque de outra forma seria também difícil chegar a alguns dos sítios, nomeadamente esse, e assim o grupo seria mais fácil. E eu senti que, enfim, tínhamos que fazer esse pagamento acrescido, mas podia depois não conseguir identificar-me. Mas depois, na verdade, ainda mesmo antes de reservar, acho que foi no último dia, um dia antes de viajarmos, coincidentemente, porque nós antes também tínhamos aqui um grupo de americanos, em Portugal, dos quais eu também fui guia, aqui em Lisboa, E acabei por falar com alguns destes líderes e perguntei se conheciam alguém de referência em Marrocos, pessoa surda, que pudesse ser guia, por exemplo. Só uma curiosidade minha, portanto, não tinha expectativa nenhuma nessa resposta, mas ia viajar no dia a seguir. E eles disseram assim, há lá um guia que também costuma acompanhar estas pessoas americanas. Então deram-me esse contacto e então liguei para lá, para essa pessoa. E disse-me bem, temos duas vagas livres porque de facto houve duas pessoas que precisaram de ir embora de Marrocos e entretanto devido a um problema de saúde foram embora, portanto coincidentemente essas pessoas não estão, portanto temos duas vagas livres. E disseram então, venham, são bem-vindos. Portanto aproveitámos para estar e foi uma aventura mesmo de última hora. E, de facto, foi um grande impacto para mim porque foi a primeira vez em que estive com guia, não enquanto viajante, mas na posição, enfim, contrária, eu própria ali, a viajar e a acessibilidade, de facto, foi a 100%, foi feita em língua gestual, obviamente numa língua gestual diferente, foi feita em gesto internacional. e também em língua gestual americana, porque o grupo era de americanos, e por isso também eu dominei esta língua, porque também fez parte do meu crescimento, e senti-me de facto muito integrada, muito bem no grupo, durante aquela semana, e depois a questão da acessibilidade, da cultura, a experiência também das pessoas churdas estarem naquele lugar, em Marrocos, e enfim, ter essa experiência, esse contacto, para mim foi de facto mesmo muito importante. [00:07:56] Speaker B: Uma grande coincidência. Mas pelo que eu percebo, tu dominas então outra língua gestual, mas se calhar não acontece sempre isso. É fácil encontrar guias, qualquer pessoa que vá daqui para outro país? [00:08:18] Speaker C: Em todo o mundo, e na maior parte dos países, existem sempre aqui e ali guias locais que são surdos. Normalmente, eu pessoalmente não contacto muito, porque gosto de ir eu por mim própria, sozinha, descobrir os sítios. Não sou muito de estar em grupos turísticos, acho que não sou esse tipo de viajante. Mas no caso de Marrocos foi mesmo uma coincidência. Bom, o que aconteceu? No entanto, existem serviços que têm essa oferta disponível na maior parte dos países em todo o mundo e também existem agências, digamos assim, também de pessoas surdas e que criam às vezes pacotes de viagens exatamente com o objetivo destes grupos e por isso veio a vento. E há a ANZ ON Travel, que é muito famoso e que é uma empresa americana que já tem 20 anos de existência E, de facto, tenho feito essa referência para vários grupos e eu tenho de trabalhar também em conjunto com eles aqui em Lisboa. Quando eles vêm cá sou eu que sou guia desta empresa. [00:09:15] Speaker B: Então és guia em Portugal para receber turistas? [00:09:19] Speaker C: Em Lisboa, na cidade de Lisboa, sim. Quando vêm pessoas americanas cá. [00:09:24] Speaker B: Ok, isso é super interessante. Então, se não tens sempre guia, e eu sei que fazes leitura labial, não é? Como é que tu te desenrascas nos outros países? Porque também a língua é diferente. Como é que fazes para desenrascar? [00:09:51] Speaker C: Eu acho que aqui há a questão do death gain, que é uma expressão que se costuma dizer que é as vantagens que as pessoas surdas trazem no mundo, e no caso das viagens é um dos exemplos, porque de facto a língua desses países é diferente, é desconhecida, e podem falar, por exemplo, árabe, como é o caso de Marrocos. Mas não é preciso falar oralmente, por gestos, por mímica, consegue-se comunicar com as outras pessoas. As pessoas têm esse hábito também de apontar, através de mostrar um visor, algo, fazer uns gestos, apontar, mímica, apontar, ou usar o telemóvel para escrever. Não é preciso propriamente falar oralmente determinada língua, como eles também não falam a nossa. E por isso não é preciso fazer a leitura dos lábios, nem oralizar. E, na verdade, a base é muito visual. E isso também traz esse interesse no viajar. [00:10:40] Speaker B: Eu sei que isso também é uma vantagem que tu tens enquanto médica, não é? Queres explicar um bocadinho? [00:10:49] Speaker C: De facto, é semelhante à questão das viagens, porque a comunicação com pessoas estrangeiras é também o que eu faço no meu dia a dia, na minha prática profissional, nomeadamente nas urgências. É uma zona onde eu estou que tem muitos migrantes. E esses migrantes desconhecem o português, também o inglês, e então a maneira de resolver essa questão da comunicação, essa adaptação que é feita, às vezes através de mímica, de desenhos, de tradução através do telemóvel, e estas ferramentas, estes métodos, são algo que eu tenho este hábito ao longo do meu crescimento, porque eu cresci enquanto pessoa surda. Então quando essas pessoas estão no atendimento, vêm até mim, eu já tenho, e já faz parte de mim, esta adequação à comunicação e já faço isso também com os outros colegas. [00:11:29] Speaker B: Muito interessante. Quando estás a programar a viagem, quais são as maiores dificuldades que tens? Isto porquê? Porque eu suponho que talvez nos transportes tenhas mais alguma dificuldade ou não. [00:11:48] Speaker C: Eu creio que não, não. Enfim, felizmente por exemplo no caso do aeroporto é tudo muito visual, os sinais também são icónicos e por isso também leva que mais ou menos eu saiba o caminho. Depois também tenho esta experiência ao longo do meu crescimento em estar em aeroportos e portanto é tudo muito semelhante a forma de funcionamento. Alguns são mais pequenos, outros maiores, mas mais ou menos é o mesmo. Depois o que é importante antecipadamente, antes da viagem, é de facto essa preparação que é o local, se o local tem uma série de situações, do que é que eu vou fazer nesse local, e aí essa informação Tento fazê-la um bocadinho antes da viagem, para chegar ao sítio e não haver estas surpresas que às vezes acontecem. No aeroporto, por exemplo, às vezes, sempre, sempre não, mas às vezes eu costumo avisar, que sou uma pessoa surda, por alguma questão que possa acontecer, para as pessoas saberem, e principalmente quando viajo sozinha, normalmente faço isso, aviso, quando vou acompanhada com uma pessoa ouvinte. Penso que não há essa necessidade, vou um bocadinho mais descansada, mas normalmente aviso. Mas é simples. [00:12:46] Speaker B: Sim. Aqui a pergunta também vai um bocadinho tanto nos transportes como nos alojamentos, achas que faz falta ainda mais alguma acessibilidade, eu diria aqui se calhar em termos de alertas, que normalmente costumam ser cenários, qual é que é a tua experiência? [00:13:10] Speaker C: Sim, eu, de facto, nunca me aconteceu nada dessa necessidade, digamos assim, quer dizer, na verdade já aconteceu, mas é outra história e agora de repente lembrei-me ao dizê-lo. Mas houve uma pessoa surda que eu conheço muito bem, que num hotel, no quarto, o quarto aconteceu um incêndio com um secador de cabelo, entretanto a pessoa estava a dormir, não houve aviso, não houve alarmes nenhuns visuais e foi um segurança que derrubou a porta e que o foi chamar. E de facto é necessário pensar-se noutras alternativas de segurança, iluminação, que a nível luminoso, alerte, mais perto também dos quartos, das escadas, haver esses avisos é importante, não é? E quando há essa disponibilidade isso pode acontecer, porque as pessoas surdas também estão nesses alojamentos. Portanto o nível de acessibilidade, aqui não estou a falar só a nível motor, digamos assim, mas a nível desses avisos visuais que devem existir. aconteceu comigo, foi na pousada da juventude, aqui em Portugal. Eu estava a tomar banho e, enfim, a porta da casa de banho estava aberta e acabou por acionar um alarme de incêndio, por causa, enfim, da questão do banho, do calor, da umidade e, entretanto, veio uma pessoa a pensar que estava a acontecer qualquer coisa, porque o alarme estava a disparar, eu não tinha reparado, mas fosse um alarme sonoro Enfim, só assim eu não teria acesso. Se fosse visual, eu poderia ter apercebido-me dessa questão, não é? Portanto, os espaços também têm que avisar não só para nós, mas para os outros. [00:14:33] Speaker B: Claro. Por acaso a mim já me aconteceu, eu creio que quatro vezes o alarme tocar em hotéis. Todos falsos alarmes, felizmente. Mas imagina, no caso de viajar sozinha, deixas alguma nota na recepção ou algum aviso para o caso de acontecer alguma coisa? [00:14:54] Speaker C: Sim, sim, sim. Enfim, porque as pessoas surdas não são desde logo visíveis, não é? Então, é no contacto visual, eu chego ao pé da pessoa e digo que sou uma pessoa surda e já tenho isso em termos práticos, não é? Dar essa informação, porque há pessoas que muitas vezes não sabem que está ali uma pessoa surda e há esse aviso, portanto, eu não sei se elas têm esses cuidados ou não, eu duvido muito que muitas vezes isso aconteça, penso que em geral isso não acontece, mas devia acontecer, não é? Para uma eventualidade qualquer que possa acontecer e para as pessoas estarem preparadas e o hotel também estar. [00:15:26] Speaker B: Costumam procurar-te muitas pessoas para perguntar como é que fazes, como é que viajas, dicas? Achas que as pessoas têm receio em viajar? [00:15:38] Speaker C: Sim. Eu penso que sim. Há pessoas que não cresceram com esta experiência e têm uma realidade de contacto mais rara e depois quando querem dar o primeiro passo procuram com outros dúvidas, dicas e eu estou sempre disponível para o fazer. Para mim é um bocadinho ir à aventura. Eu é, bora, vamos à aventura. E logo se vê. Logo se vê viver e ter essa experiência, não é? [00:16:04] Speaker B: Claro. É um bocadinho como eu, mas também o facto de viajar acompanhada a mim também me dá essa segurança, não é? Porque se precisarmos de alguma coisa temos logo ali alguém que nos ajude. Tens alguma história em que E a perguntar das duas maneiras. Alguma história em que tenhas sentido que essa falta de acessibilidade te tenha prejudicado e antes pelo contrário, algum país em que tenhas sentido completamente incluída? [00:16:41] Speaker C: Sim, tenho. Lembro-me da Finlândia. em que fui lá de viagem, é Alcínquia, a capital, e de facto a cultura em termos da civilidade é totalmente diferente, é totalmente o oposto. Que é ali, enfim, na Europa em geral, alguns países também fora da Europa isso também acontece, que é quando se vai a um museu não há adaptações, enfim, a pessoa paga o bilhete e às vezes tem acesso a um bilhete grátis, por isso na Finlândia é precisamente o contrário. quer dizer que se a pessoa vai acompanhada de alguém, a pessoa que vai acompanhada não paga, eu é que pago. Portanto, ou seja, e então indo acompanhada, essa pessoa não paga e eu pago. Então surpreendeu-me um bocadinho esta ideia, porque normalmente é sempre gratuito, noutros sítios, exatamente por não haver acessibilidade. Neste caso, íamos os dois e pensámos, olha, curioso, não é? Na Finlândia é diferente, tanto que tem a ver com filosofia ou se calhar uma prática muito forte que eles têm, porque a Finlândia é um país em que as pessoas surdas têm sempre acesso a intérprete, da língua gestual deles, até, enfim... situações que acontecem, por exemplo, o governo faz esse pagamento, portanto é uma realidade já muito entranhada neles, que é mesmo assim, em termos de acessibilidade. Quando eu cheguei lá foi um choque para mim, pensei então, eu ok, eu vou pagar, mas tudo certo por mim, tudo certo, acho-me muito bem, porque havia acessibilidade, mas nós não temos esse hábito de o fazer aqui. Pronto, é engraçado. [00:18:04] Speaker B: Isso aconteceu-me, eu estive este ano também na Filândia e também Já me aconteceu noutros países também, mas realmente aí quem não pagava era a pessoa que ia comigo e eu pagava. E eu acho que faz todo o sentido, porque desde que haja acessibilidade nós queremos pagar, não é? Não queremos borlas. O facto de ir alguém connosco é... porque podíamos precisar de alguma ajuda para alguma coisa, não é? E, portanto, eu acho que faz todo o sentido. E também reparei nisso. Que, por curiosidade, depois, pelo que eu vi, também passaste para estar ali no barco e eu fiz exatamente a mesma coisa. [00:18:45] Speaker C: Sim, foi, foi, foi, sim, sim, sim, sim. Mesmo lindo, mesmo, justamente lindo. Eu adorei, adorei, adorei lá. [00:18:52] Speaker B: E uma situação ao contrário, em que te tenhas sentido completamente excluída, também já te aconteceu? [00:19:01] Speaker C: Estava aqui a tentar lembrar-me ao longo da minha vida de várias situações que acontecem. [00:19:07] Speaker B: Eu sim, vi que foste ao México. [00:19:10] Speaker C: Sim, fui, fui, fui. Mas não sinto exclusão, enfim, penso que seria o que acontece também em Portugal, ou seja, às vezes tem mais que ver com questões atitudinais, da atitude das pessoas, de ter algum receio, isso sim, esse tipo de coisas acho que é universal, infelizmente, que acontecem. mas acho que esse é que é o problema maior. Por exemplo, eu lembro-me quando fui numa viagem de avião, eu antes avisei que era uma pessoa surda, apontaram o meu nome e o lugar onde eu estava, e enfim, eu entrei no avião, sozinha, tudo certo, sentei-me, E, de repente, chega a hospedeira, vem até comigo, mesmo muito perto da minha cara e começa a falar muito devagar, muito devagar. Parecia que estava a gritar muito alto porque eu via as pessoas olharem para mim. Eu percebi que era isso que ela estava a fazer. Eu pensei, olha, ela está a fazer. As pessoas estão a olhar para mim por causa disso. Uma presença um bocadinho intrusiva. E eu disse-lhe, obrigada, mas eu não preciso. Eu queria era que ela fosse embora dali. Então, esse tipo de atitudes que as pessoas têm significa que não estão preparadas. Esse tipo de coisa sim acontece. [00:20:12] Speaker B: Achas que falta ainda muita formação? [00:20:15] Speaker C: Sim, em todo o lado, sim. [00:20:19] Speaker B: Em todos os países? [00:20:22] Speaker C: Eu também não fui a todos os países, gostava. Mas eu acho que é geral. Eu penso que esse tipo de atitudes, de barreiras, se fossem resolvidas tudo o resto era mais fácil. Se as pessoas nos aceitassem e fizessem alguma adaptação, adequação, porque isso de certeza que todas as mudanças mais difíceis aconteceriam. [00:20:43] Speaker B: Eu, por exemplo, lembro-me quando estive em Dublin que achei as pessoas muito, muito simpáticas, mas sem serem intrusivas. Achei simpáticas com naturalidade. Eu acho que é isso que falta, não é? [00:20:59] Speaker C: Sim. Dublin, por exemplo, tem outra história. Eu fui a Dublin juntamente com o meu marido e o meu pai, fomos os três, e chegámos à biblioteca, à Kells, da Universidade, em Dublin, que é uma biblioteca muito famosa, muito bonita, e nós já estávamos preparados, chegámos lá, íamos pagar, pronto, e ter acesso à informação, nem vimos nada sobre as pessoas com deficiência, portanto, chegámos lá, estávamos na fila e eu de repente estava a conversar. Lá está, em língua gestual portuguesa, é uma língua visual. Com o meu marido estávamos a conversar e de repente a senhora da bilheteira olhou para mim e quando eu cheguei ela disse, deu-me o bilhete e pronto. E é para ir. E eu, mas não é para pagar. Portanto, ela viu-me gestuar, não é? Entretanto, pensei que fosse para mostrar um cartão, um atestado, qualquer coisa. Não, ela olhou para mim, percebeu que eu era surda e automaticamente foi-lo. E pronto, eu achei aquilo muito bom. [00:21:48] Speaker B: Claro, eu também achei muito natural a maneira como lidaram comigo. [00:21:53] Speaker C: É, é muito simples. Não era aquela coisa de mostrar isto, mas será que não foi preciso fazer nada? [00:21:57] Speaker B: Não, claro que não. Mariana, estamos a chegar ao Sri Lanka. Porquê o Sri Lanka? Já lá estiveste, queres muito ir, porquê? [00:22:10] Speaker C: Na verdade, este desafio que me levou a refletir sobre um país qualquer que eu gostasse mesmo muito de visitar, levou-me a lembrar-me de um livro que eu li, de um escritor que é Eduardo Coelho e esse livro fala do Sri Lanka na altura em que estava com a ocupação portuguesa e fala também da forma como a cultura portuguesa lá foi colocada, a questão da religião, dos costumes e tudo isso e da alimentação que acaba por influenciar e depois por outro lado também algo muito próprio do Sri Lanka, muito indígena e isso levou-me a ter este grande interesse, sem visitar. E depois também, este nome deste livro é também de uma planta medicinal, também salvou muitas pessoas, nomeadamente no Sri Lanka, e isso também levou aqui a esta importância na altura para as pessoas que a ocuparam. Então este livro teve aqui muita importância para mim, deixou-me aqui na imaginação um país que eu gostaria muito de conhecer. E também esta relação que tem com a língua portuguesa, de certa forma, algumas proximidades que ainda tem, algumas influências, arquitetura também, e isso de facto, um sítio onde os portugueses estiveram, também é interessante, é positivo, mas também tem obviamente estes aspectos negativos, há sempre dois lados da moeda. Mas esta curiosidade que eu tenho leva-me a querer visitar. [00:23:36] Speaker B: E eu também, também gostava muito. Ia-te só perguntar, há algum destino em que tu achas que não queres ir devido ao facto de ser surda? Eliminares completamente esse destino ou não? [00:23:56] Speaker C: Eu acho não tanto por ser surda, mas por ser mulher. E então há diversos locais do mundo em que eu sinto que de facto não é algo onde me sinta bem. Um grande impacto que tive também quando fui à capital, à cidade do México, em que vi mulheres de um lado e outras pessoas do outro lado. Havia uma zona própria só para mulheres. Isso significa que ao longo da história há casos de violações, de raptos e afins e é algo que fez com que o governo criasse ali uma estrutura só para mulheres e eu sendo mulher e para algumas dessas zonas é de grande impacto, não é? É um enorme impacto porque eu vivo num país onde cresci, onde é seguro, onde eu me sinto bem enquanto mulher e há outros países onde isso não acontece. Agora, não tanto enquanto surda. Porque acho que as pessoas veem as pessoas surdas ainda como inofensivas, como pessoas que não têm grande impacto, e isso leva a que as pessoas até nos tratem melhor, porventura, não é? Às vezes dão-nos melhores serviços por isso. Mas é mais para isso, sinto mais por ser mulher. [00:25:01] Speaker B: Claro. Esqueci-me há pouco de perguntar se usas alguma app ou alguma tecnologia que te ajude quando estás em viagem? [00:25:13] Speaker C: Tenho o Google, que serve para tudo, o Maps, o Google Tradutor, informações, onde lá vou buscar também o Google, tudo do Google, portanto acabo por ser uma ferramenta muito boa para as viagens. [00:25:25] Speaker B: E se te perguntassem alguém que tem medo, que tem receio de ir em viagem, que dica, conselho é que darias? [00:25:41] Speaker C: O medo é uma forma, enfim... que nos leva depois ao bloqueio, não é? O medo, a ansiedade, por um lado pode ser bom, mas o medo que leva ao bloqueio de viajar perde-se muito com isso, não é? Por isso acho que o importante é ultrapassar esse medo, tendo acesso à informação, começar por dar esse passo de conhecer o país ou ir a um país mais perto, por exemplo na Europa, um país mais parecido com o nosso, em que não haja um grande choque cultural e aí depois começar por ganhar esse interesse em visitar outros países. países, digamos, entre aspas, com mais risco ou com uma cultura totalmente diferente, a alimentação diferente, a gastronomia e ser para depois, não é? Mas acho que, por exemplo, no caso da gastronomia, por exemplo, no meu caso eu não sou uma pessoa que tenha limitação na alimentação, eu como de tudo, mas, por exemplo, há sempre alternativas, não é? Há pratos que podem se adequar mais ou não, por exemplo, fazer esse trabalho de casa antecipado e depois no momento não ter esse choque tão grande. [00:26:38] Speaker B: Claro, eu aconselho, o que eu costumo dar normalmente é porque não começarem por Portugal, não é? E depois irem indo aos poucos. [00:26:50] Speaker C: De facto, é verdade. [00:26:50] Speaker B: Não é? Porque Portugal também é um país maravilhoso para visitar e é ótimo para começar. Qual é a próxima viagem? Já está programada? [00:27:03] Speaker C: Agora a próxima vai ser a Marrocos, no fim de semana prolongado, portanto para a semana, uma semana e meia. E vamos a Marraqués, só lá, pronto. E um bocadinho descansar, fazer umas corpas e vir embora. [00:27:18] Speaker B: E eu ando há tanto tempo para ir a Marrocos. Só fui quando era pequena e quero muito voltar. [00:27:25] Speaker C: Sim, mas é, vale a pena ir lá muitas vezes. E tem a ver também com as questões de acessibilidade e também há zonas que são muito boas e há muitas pessoas também com deficiência, pessoas com idade, pessoas amputadas também, tem a ver com as condições também de saúde do próprio sítio, isso também tem um grande impacto. Mas há ali muitas questões familiares, de respeito, nota-se muito pelas pessoas. É o que eu sinto quando lá vou, da minha perspectiva. E por isso acho que é um país muito bom para ir à aventura. [00:27:53] Speaker B: Ótimo. Boa viagem, que aproveites muito. Obrigada. Obrigada, Maria. Chegamos ao fim desta viagem. [00:28:01] Speaker A: No próximo episódio vamos abordar outras condições. [00:28:04] Speaker B: E outras questões e mostrar que viajar é para todos. Podem acompanhar o podcast Viajar é para Todos nas plataformas habituais de podcast Spotify, Soundcloud, Apple Podcast, YouTube ou diretamente no site do Automóvel Clube Portugal ou no meu JustGoSofia.com. Obrigada. Obrigada, Mariana, e obrigada, Sofia, pela tua disponibilidade. Obrigada.

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