Episode Transcript
[00:00:06] Speaker A: Sejam bem-vindos a mais um podcast do Automóvel com Portugal. Sou Mário Vasconcelos e hoje temos como convidado Francisco Lucena, um empresário que marcou muito as noites dos anos 80. Francisco, muito obrigado por ter aceitado o nosso convite. A conversa que vamos ter faz parte de uma série da Lisboa dos anos 80, que desta vez vai incidir sobre o lado boémio da cidade, como era e de jantar fora, como era a forma de nos divertirmos nessa época.
Vamos aqui imaginar uma noite de saída de diversão.
Começa pelo jantar.
E nessa altura, quais eram assim os restaurantes que estavam na moda?
[00:00:46] Speaker B: Quando eu abri o meu terceiro restaurante, segundo, foi o Namoras.
Nessa altura, Lisboa, em termos de restauração, nessa altura, 80, 81, havia os clássicos, o Paris, o Gambrins, mas de vários... Agora, a década de 80 é a abertura da restauração. O Xel, por exemplo, abrigo quase na mesma altura que eu, sucesso.
Era um restaurante fantástico e continua a ser.
Depois, o que é que havia mais? Havia, claro, o bairro alto. Começaram a aparecer os primeiros restaurantes com comida tradicional portuguesa, mas... Como o Papa Sorda, não é? Papa Sorda.
[00:01:36] Speaker A: É um bom exemplo disso.
[00:01:39] Speaker B: Exato. E depois, na noite, era o... Chafarix.
[00:01:44] Speaker A: Mas já lá vamos. Além dos seus restaurantes, certamente começaram a abrir mais... Que tipo de clientela? É que...
[00:01:52] Speaker B: Havia pouco, pouco turismo na altura.
[00:01:55] Speaker A: Muito pouco mesmo.
[00:01:57] Speaker B: Portugueses conhecidos, políticos, na altura... Só Francisco, desculpa interromper.
[00:02:03] Speaker A: Saímos do marasmo, de um longo período... Marasmo.
[00:02:07] Speaker B: Cinco anos não houve nada.
[00:02:09] Speaker A: Lisboa começa de facto a acordar no início da década de 80, as pessoas começaram a descobrir uma nova forma de se divertirem e de saírem à noite e de jantar. Que tipo de pessoas, para além dos políticos que já referiu?
[00:02:24] Speaker B: Eu diria que, já na altura, também não era assim tão barato, mas era muito mais barato do que agora. Muito mais barato. E todas as pessoas saíam com 20, 18, até aos Eu deixei de sair à noite com 70 anos.
Até lá, a minha geração era todos os dias ir a jantar fora.
Todos os dias.
[00:02:49] Speaker A: E toda a gente impecável, não é? As pessoas nessa altura gostavam muito de saber estar lá.
[00:02:53] Speaker B: Enfim, tudo muito. Mas na restauração, eu diria que era muito fraquito.
Lisboa, não.
[00:03:01] Speaker A: Exatamente. Mais tarde já começam então...
[00:03:03] Speaker B: Eu tinha sido um bocadinho também com a entrada da AD.
79, 80.
Foi uma viragem por causa do sacaneio.
E depois, em termos de restauração, talvez 83, 85.
[00:03:21] Speaker A: Mas não nos podemos esquecer também de outra coisa importante, que foi o regresso de muita gente que após o 25 de Abril fugiu para o Brasil.
teve contacto com novas realidades e voltou.
E os empresários como o Francisco começaram a descobrir isso. Não, espera. As pessoas estão a querer algo diferente. Vamos aqui, como é que nós podemos...
[00:03:45] Speaker B: Na altura, eu fazia muito restaurante e bar.
Ou seja, até há uma, uma e meia, A malteia ia ao restaurante e ficava, nessa altura, porque não havia assim muita oferta, não é? Depois abriram mais uns bares, o bairro alto começou a mexer, depois apareceu.
Começou a aparecer a noite, digamos.
[00:04:09] Speaker A: Claro, claro.
E ainda nos restaurantes, na organização dos cardápios, quais eram os pratos que mais estavam na moda nessa altura?
Porque isto também é gastronomia, também é feita de modas, não é?
[00:04:19] Speaker B: No meu restaurante, eu posso dizer que em Lisboa, introduzi o bife Tartar, que é uma coisa antiga, que é o bife de lombo partido com os coisos, feito à mesa no Paris Orly, que foi um restaurante que eu comprei na altura, que era ali na Avenida de Roma com o João XXI.
E nós inovámos um bocadinho a carta, já era assim uma carta para uma clientela, mas era quase tudo português.
[00:04:52] Speaker A: Mas havia moda nos pratos, havia?
[00:04:54] Speaker B: Sim, bacalhau, sim, sempre.
[00:04:57] Speaker A: Ah, isso é um clássico.
[00:04:58] Speaker B: Sim, mas nessa altura era bacalhau à séria.
O Beef Tartare, sim, era um sucesso.
O entrecôte de café de Paris.
O que é que eu me lembro mais?
[00:05:10] Speaker A: Olha, lembro-me de uma coisa que na altura se pedia muito.
[00:05:12] Speaker B: Carpaccios.
Introduzimos os carpaccios. Não havia.
[00:05:16] Speaker A: Linguado. Era uma coisa que nos anos 80 estava muito em voga.
Há pouco disse que a oferta era.
[00:05:23] Speaker B: Limitada, antes da década de 80. Os grandes clássicos.
um bocadinho mais alta. Portanto, Táscara. Quando não ia jantar, hoje em dia...
[00:05:35] Speaker A: Lisboa era feita de Táscaras, não é?
[00:05:37] Speaker B: Ia jantar, o alto era de Táscaras, Táscaras, Táscaras... Depois muito estragadas, depois estragou-se muito.
[00:05:43] Speaker A: Na altura lembro-me que ainda havia restaurantes italianos.
Já havia restaurantes italianos, alguns.
[00:05:49] Speaker B: Os poucos, os poucos.
[00:05:49] Speaker A: Exatamente. Porque a cozinha internacional, tal como a conhecemos hoje, ela chegou mais tarde.
[00:05:55] Speaker B: O que eu me lembro melhor era o do Bairro Alto. Primeiro bolo italiano no Bairro Alto.
[00:06:03] Speaker A: Francisco, e nessa altura, nos anos 80, havia muito o culto da pessoa aí de jantar fora para comer bem.
para ver e ser visto. Sobretudo nos restaurantes da moda, não é?
[00:06:15] Speaker B: Completamente. Então, ao fim de semana, eu tinha duas marcações, 8h30 a 10h, e acabava de servir à meia-noite e meia, uma hora.
[00:06:29] Speaker A: Mas nós hoje se calhar não nos importamos tanto de quem vamos ver se nos apetece ir a tribunal. Naquela altura era muito social.
[00:06:38] Speaker B: Era a moda.
Quem está indo, quem não está indo.
[00:06:42] Speaker A: Que era isso que eu lhe ia dizer.
[00:06:43] Speaker B: Há política ligada com os empresários e ligada com... Com o mundo das artes também. Exatamente.
[00:06:49] Speaker A: Com o jornalismo também.
[00:06:50] Speaker B: Exato. Muitos clientes vão aos jornalistas. Muitos, meus amigos.
[00:06:54] Speaker A: Aliás, eu ia dizer isso mesmo. Estar-se IN nos anos 80 era uma atitude muito cultivada, não é? Quer dizer, as pessoas queriam estar IN a ter nisso.
[00:07:05] Speaker B: IN era para ser visto.
Estiveste ali, estiveste lá. As pessoas estavam não sei quantas.
[00:07:11] Speaker A: Pois, porque isso depois comentava-se.
[00:07:14] Speaker B: Eu vi-te ontem. Era uma coisa que se dizia. Eu vi-te ontem. Aonde? Aqui, aqui, aqui. Depois. E a malta seguia todos os membros queridos.
[00:07:23] Speaker A: A noite depois prosseguia, não é? Depois de um belo jantar rumo, enfim, a clubes noturnos e discotecas. O que é que havia nessa altura? Que espaços eram esses?
[00:07:32] Speaker B: Havia os clássicos antigos, mas já há muito a quebrar. Na década de 80, o Sotão já há quebrado, Van Gogh também há quebrado, abriu o 2001, levava a malta de Lisboa Para a noite, mas era uma noite mais violenta.
[00:07:51] Speaker A: Mais alternativa, não é? Mais alternativa.
[00:07:54] Speaker B: Mas depois dos clássicos, era fraquinha, a malta queria outra.
[00:08:00] Speaker A: Mas o Bananas, por exemplo, que inaugurou em 1981, teve um exito estrondoso.
[00:08:05] Speaker B: Que era uma boate grande e que começava a bombar às onze da noite, onze e meia estava cheio.
E era até às três, quatro da manhã. Nessa altura as pessoas já estavam-se tarde, mesmo os formados, às oito da manhã ia tudo trabalhar, e estava tudo ali às quatro, eu tinha que correr com eles às quatro, cinco da manhã, porque era o único grande que havia em Lisboa.
[00:08:30] Speaker A: Qual era o sucesso, a receita para esse sucesso? Era o facto de ser uma boate muito grande?
[00:08:35] Speaker B: Na altura era grande, mas depois o Manecas, que foi a ideia que ele trouxe, fez um clube privê, Um clube privado, que era o Banana, foi declarado pela Graça Viterbo.
E foi um sucesso, também tínhamos restaurante lá.
Foi um sucesso bestial.
[00:08:57] Speaker A: Era um dos sítios em Lisboa em que as pessoas...
[00:08:59] Speaker B: Quem queria ser visto tinha que ir lá. E quem não tinha entrada pelo clube, tinha que pagar um cartão.
que estava na altura a 25 mil escudos.
Era muita máscara. E quem não tinha acesso direto pelo clube pagava durante a semana acho que era 150 escudos e ao fim de semana 300 escudos.
[00:09:21] Speaker A: O dobro.
Mas isso não demovia as pessoas de frequentarem aquele espaço, não é?
[00:09:27] Speaker B: Atuávamos na altura, recordo, no fim de semana, sexta e sábado talvez 3 mil contos.
[00:09:36] Speaker A: De receita.
[00:09:37] Speaker B: Uma loucura. Um carro, um mini, nessa altura custava setenta contos. Setenta.
Agora, fazendo a comparação, a evolução é incrível.
[00:09:48] Speaker A: O Bananas era a catedral... Sim, que foi a primeira... Uma clientela muito seletiva, não é? As pessoas saíam à noite, mas impecáveis, tiras a rigor.
[00:09:56] Speaker B: Saía tudo bem vestido, ninguém entrava de ténis, na altura, não havia.
Não se podia entrar de sapatos. E elas estão as miúdas na altura de 18 anos, 20 que eram as que queriam entrar à força, ia tudo super produzido, mas entrava quase tudo que ia. Não havia assim uma segregação social, não havia.
Quem tinha dinheiro para pagar, ia bem vestido e entrava, não é? Porque alegrava o ambiente.
Havia muita malta-gira.
[00:10:33] Speaker A: Aliás, há um episódio muito engraçado que se conta e que ficou para a história.
Logo no início do Bananas houve uma noite em que o Pinto Balsemão, que na altura era Primeiro-Ministro em Portugal.
Entrou, cruzou-se com o Manecas e perguntou-lhe. Então, Manecas, como é que está a noite? E ele responde-lhe. A noite está bem. O dia é que não sei. Cuide-você bem do dia que eu cuido da noite. Claro que foi uma que provocou uma gargalhada geral.
[00:11:04] Speaker B: Mas lembre-me disso, lembre-me disso.
[00:11:05] Speaker A: Mas, oh Francisco, ouvindo com esta frase do Manecas, eu trato da noite. Cuide-você bem do dia que eu trato da noite.
da ideia que o Manecas se sentia com o exclusivo da noite, não é?
Pouco ou nada se comparava ao Bananas, por isso é que ele se sentia.
[00:11:23] Speaker B: Se calhar... Sim, mas nessa altura começou o Perluxo. Perluxo, parece, para aí 84, 85, julgo eu. Não sei, já não me lembro bem.
Mas também na restauração, já não me lembro com que restaurantes, mas era à movida do bairro Alto, e depois descia tudo para o Bananas. Descia tudo para o Bananas, ao contrário.
Para continuar a noite até às 5, 6 da manhã, era o Bananas.
[00:11:53] Speaker A: Que depois também começaram a surgir outros passos, que traçaram outros eixos de diversão noturna, mas esses já um pouco diferentes, já atraíam uma clientela mais diversificada, da mais tradicional à mais excêntrica. Foi o tempo do António Variações, por exemplo, e de outras personalidades.
[00:12:13] Speaker B: Isso é muito bairro alto.
Nessa altura o bairro alto retira muitas pessoas ao bairro alto. Parti-pai de 83, 84, o Bananas Até porque eles vendem o bananas ao taveira.
E depois começam outras alturas que eu agora termino.
[00:12:30] Speaker A: O Francisco fazia incursões pelo bairro alto e outros sitios. Até para ver como era à noite ou não. Ou centrava-se muito no espírito do bananas.
[00:12:40] Speaker B: Eu era da noite mesmo. Eu andava ali no... Para onde a malta ia, eu também ia. Até faz parte do trabalho, nessa altura.
Mas o... Primeiro, o Bananas tira gente a todo lado.
Eu julgo que em 83, 84, quando eles vendem, o Bairro Alto tira clientes ao próprio Bananas.
Começam a aparecer outras coisas, o Frágil, o Papa Sordas, isso tudo.
[00:13:07] Speaker A: E tantos outros sítios.
[00:13:08] Speaker B: O Bairro Alto, nessa altura, começa a ser um centro também da noite, não é?
[00:13:13] Speaker A: Aliás, estava instalada em Lisboa a movida pós-moderna, que era uma expressão que se usava muito naquela época, não é? Um bocadinho a cópia de Madrid.
[00:13:23] Speaker B: Nós, talvez, um ano ou dois antes de Madrid.
Madrid, a chamada movida, eu sei porque estive lá agora e fui lá ver o um museu só sobre a Movida, a Movida deles começa em 85.
Nós já tínhamos.
[00:13:42] Speaker A: A nossa começou primeiro.
[00:13:43] Speaker B: O nome Movida, restaurantes abertos à noite, na castelhana e não sei o quê, começa tudo em 85.
[00:13:53] Speaker A: Estamos a falar de uma década em que...
[00:13:56] Speaker B: Talvez foi a única coisa que nós andámos um bocadinho mais à frente.
[00:14:00] Speaker A: Mais à frente.
[00:14:01] Speaker B: Esses dois, três anos de Lisboa foram fantásticos, fantásticos.
[00:14:07] Speaker A: E foi uma década também de grandes festas nas discotecas. Havia até quem morcesse os cordelinhos para conseguir o acesso e aparecer.
[00:14:18] Speaker B: Eu tive cavalos a entrar pela porta do Mananas lá dentro e tipos a fazer alta escola na pista da dança.
Uma festa do Manecas em 82 no Carnaval.
Carnaval de 1982.
[00:14:34] Speaker A: E eles não se assustaram, os cavalos, com tanta gente?
[00:14:37] Speaker B: Então, um tipo de alta escola, não sei se eram um bravo, e com um cavalo entrou pelo clube e fez aquilo. Ele teve lá muito tempo, teve para aí 10 ou 15 minutos, mas nessa altura era uma festa que estava tudo mascarado, porque era Carnaval. Foi uma loucura, uma loucura.
[00:14:55] Speaker A: E os fãs lutavam pelos ingressos, não é? Por conseguir um bilhete.
[00:14:59] Speaker B: E falta que não entrava. Não cabia. Não cabia, não.
[00:15:03] Speaker A: Queriam aparecer também depois, quem tivesse essa sorte, as revistas cor-de-rosa, que também apareceram naquela altura, não é?
[00:15:09] Speaker B: Nós tínhamos a própria revista, uma revista própria, no Bananas, feitas por um Zé Maria Ribeirinho, que era um... Trabalhou no Diário de Notícias, era um tipo impecável, já morreu infelizmente, meu amigo, mas era um bom estudo.
[00:15:27] Speaker A: E saía com que periodicidade essa revista?
[00:15:29] Speaker B: O quê?
[00:15:29] Speaker A: Saía com que periodicidade essa revista?
[00:15:33] Speaker B: Mas eram as fotografias, quem é quem, os nomes, que a malta gosta muito de ver. Depois apareceu também aquelas revistas, não me.
[00:15:42] Speaker A: Lembro se era... Olá, Semanário, Eles e Elas... Uma altura em que os fotógrafos, sobretudo do social, tinham uma grande influência.
[00:15:52] Speaker B: Aquele... como é que ele se chama? Abel Dias.
[00:15:55] Speaker A: O Abel Dias. E outros, e outros, e outros.
[00:15:58] Speaker B: Há muitos nomes que eu já não me lembro de como. Eu só estive na noite... A noite é muito intensa. Nessa altura, eu trabalhava a sério. Eu ia para lá às três da tarde e chegava à casa às seis da manhã.
Aquilo tinha um... Um ritmo... Um background grande, não é? Não havia computadores.
Era tudo feito à mão.
[00:16:19] Speaker A: Oh Francisco Lucena, muito obrigado por nos traçar aqui a noite de Lisboa nos anos 80.
[00:16:25] Speaker B: Sem pretensões nenhumas, mas foi bom.
[00:16:28] Speaker A: E obrigado também a quem nos acompanhou. Podem seguir-nos no Spotify, Apple Podcast e nas redes sociais do ACP.