O Campeão do Mundo de Navegadores Rally-Raid em SSV é português

Episode 97 October 02, 2025 00:25:17
O Campeão do Mundo de Navegadores Rally-Raid em SSV é português
ACP - Automóvel Club de Portugal
O Campeão do Mundo de Navegadores Rally-Raid em SSV é português

Oct 02 2025 | 00:25:17

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Show Notes

Neste episódio, Bernardo Oliveira, partilha quais os segredos e desafios de se tornar Campeão do Mundo de Navegadores Rally-Raid na categoria SSV com apenas 20 anos de idade. 

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Episode Transcript

[00:00:07] Speaker A: Sejam muito bem-vindos a mais um podcast do Automóvel Clube Portugal. Eu sou o Francisco Costa Santos e hoje vamos falar sobre todo o terreno e desporto automóvel, porque temos como convidado o navegador Bernardo Oliveira, o mais recente campeão mundial de navegadores. Bernardo, muito obrigado por estares aqui hoje connosco à conversa. Onde é que começou todo este fascínio pelo mundo dos rallies? [00:00:32] Speaker B: Olá, boa tarde. Muito obrigado pelo convite para estar presente e para todos que estão a ouvir. A minha carreira no mundo dos rallies começou relativamente tarde comparado a outras pessoas. Começou aproximadamente apenas com 18 anos. Já estava no sangue o mundo dos rallies e de todo terreno. Toda a minha família fazia corridas. Desde rallies a Dakar e troféus de navegação a nível nacional, todos estavam interligados a este mundo. Mas, para honestamente, durante a minha infância nunca foi nada que... me cativou. Apenas com 18 anos é que o meu pai decidiu passar das motos para os carros e comprou o primeiro canhão dele, o X3. Foi algo que desde o primeiro momento me cativou, mas quando eu vim no Dakar e comecei a vir no aerosport outra vez, eu comecei a mais acompanhar o mundo todo de terreno a nível de carros e percebi que era uma coisa que até me cativava. E quando ele voltou da Arábia, eu disse-lhe que gostava de experimentar fazer uma corrida com ele, na altura ainda com 17 anos, não conseguia obter licença FIA. e quando fiz 18 anos comecei a fazer corridas lá com o meu pai, a navegador, mas no fundo desde pequeno que sempre estive ligado ao mundo das corridas, desde a equipa de enduro do meu pai que correia a nível mundial, eu lembro-me de ter pilotos a viver na minha casa das motos, sempre foi algo que esteve ligado a mim, mas que na altura não me cativava e se me estivesse a dizer durante a minha infância que um dia iria estar aqui, muito provavelmente não acreditaria. [00:01:50] Speaker A: É então uma influência familiar e um verdadeiro sonho Bernardo, qual foi a primeira experiência como navegador e o que é que te marcou na primeira prova? Como é que foi, tão novo, tu atualmente tens 20 anos, e como é que foi com os 17 participar numa prova? Qual é a experiência que retiras desse primeiro momento? [00:02:11] Speaker B: A minha primeira prova de navegação tinha uma história bastante engraçada porque foi uma prova de navegação feita em Portugal na altura do troféu R3, que fui com o meu pai na altura. Foi a minha primeira prova de navegação a sério. Foi o R3 de Maçã, que ainda hoje no Rally Rare de Portugal passamos lá e que isso ainda me motivou mais. Honestamente correu bem desde o início porque eu já trazia uma base forte, o meu pai ensinou-me tudo a navegar e etc. Por isso já não era nada que fosse novidade para mim e ia sem stress nenhum. A história engraçada foi que ao fim de um dia tivemos que vir embora porque era durante o Covid-19 e eu testei positiva ao Covid-19 na corrida. Por isso foi uma primeira aventura assim um bocado única, uma que nunca mais irei esquecer de certeza. Em termos de primeira prova a nível federal já foi com 18 anos só, foi abaixo a montes de além dos anos também. E também tenho que mostrar um bocado engraçado porque a primeira corrida que fiz capotei ao quilómetro 10. [00:03:00] Speaker A: E como é que foi? [00:03:02] Speaker B: No Prologue ainda, no Prologue de Veja ainda. [00:03:04] Speaker A: Como é que foi ver tudo andar à roda, os papéis não voaram, a navegação, como é que se manteve? [00:03:09] Speaker B: Foi engraçado, foi com o meu pai ainda e eu não fazia a mínima ideia de como sair do carro sequer porque aquilo não tinha vidro e etc. Foi muito engraçado mesmo, depois a corrida até acabou por correr bem porque o Prologue não contava, perdemos 3 minutos só e depois saímos cá atrás, atrapalhando os carros todos. E foi bastante engraçado, sem dúvida. Foi uma prova que ficou-me marcada. Fiz 2º lugar na altura logo. Daí para a frente foi sempre altos e baixos, como é lógico, mas sempre a aprender e sempre com várias corridas a nível nacional. [00:03:37] Speaker A: Claro que sim. Bernardo, agora vamos passar aqui para a parte da exigência da tua carreira. Para quem nos ouve e hoje apenas ouve porque o podcast, pelo facto de estares a estudar nos Estados Unidos, hoje temos um podcast apenas de áudio. E entra aqui na parte das exigências. Tu estás num nível profissional, E como é que consegues manter esta logística? Ou seja, não falhares a nível de educação, não falhares ao nível dos treinos, como é que se mantém esta organização? [00:04:07] Speaker B: Eu estou a estar nos Estados Unidos agora, mas só comecei há aproximadamente um mês. É algo que também é novo para mim estar cá a viver. Comecei a correr neste caso agora com o Alexandre Pinto há aproximadamente dois anos. Sempre lhe disse que quando acabasse a minha licenciatura que iria estudar para fora, só não sabia onde. E ele sempre me apoiou nessa decisão, era algo que já estava falado e quando surgiu a oportunidade de eu vir para cá para os Estados Unidos ele disse-me logo vai e depois resolvemos isto. Felizmente conseguimos conciliar tudo. Em termos de treinos aqui, como é lógico, torna-se tudo muito mais difícil. A nível físico, como é lógico, consigo manter tudo igual aqui, mas em termos de passar tempo com o Alexandre no carro, torna-se tudo dez vezes mais difícil. Em vez de estar a uma hora de carro ou duas deles, estou a dez horas de avião. É tudo muito diferente, mas é algo que foi falado e que estamos dispostos a arriscar. [00:04:55] Speaker A: Exatamente. [00:04:57] Speaker B: Acerca de provas, para já está tudo ok, consegui ir a Portugal a fazê-la, como é lógico que honestamente na universidade não gostaram muito. Mas eu disse que teria que ir, que era uma oportunidade de uma vez a ser campeão do mundo. E vamos a Marrocos também, daqui a duas semanas. [00:05:13] Speaker A: Claro. É já... e é a última prova do campeonato, não é? [00:05:16] Speaker B: Correto, correto. É a prova que fecha o campeonato. Eu disse... informei aqui que iria participar em Marrocos e no Dakar também, neste ano, com o Alexandre. Iremos continuar juntos para o Dakar. O Dakar sem dúvida que para mim tem que ir e acabou. Não há hipótese. É a prova que eu gosto mais do campeonato, como é lógico. Não posso faltar mesmo. Até agora era tudo muito mais fácil, porque eu estava a estudar na minha terra em Braga, que a sua Guimarães estava a estudar a 20 minutos de casa, e eu honestamente tinha mais facilidade a voltar às aulas, porque são coisas mais assim... Por exemplo, eu e o Alexandre, as pessoas se calhar não têm muita noção, mas nós ao repassarmos, eu posso dizer que tranquilamente o ano passado passei 3 meses em Marrocos. Tivesse que apostar a segunda hora, diria assim, mesmo muito tempo, porque havia semanas em que fazíamos 3 mil quilómetros no carro corrido a preparar e... [00:06:00] Speaker A: Pois. [00:06:01] Speaker B: E é daí. [00:06:02] Speaker A: Mesmo no terreno, exatamente, bolas. É muito, é muito, é muita preparação. [00:06:07] Speaker B: Sim, sim, sem dúvida. Só, eu acho que só eu, o Alexandre, quem ia conosco para o Marrocos, desde... Às vezes íamos com mecânica, outras vezes íamos sem mecânica, pegávamos no carro e íamos de Portugal para o Marrocos, só nós e o Team Manager, o Rui. O Rui acompanhou-nos muito nas vias para o Marrocos, o Rui Lopes também, Acho que só nós sabemos o que é que passámos e eu acho que as pessoas que veem este título fora apenas veem o título e não sabem o que é que se passou mesmo na realidade, porque o Alexandre a primeira vez que andou no deserto foi há um ano e meio, dois anos aproximadamente, quando nos estávamos a preparar para o Rally Marrocos e desde então foi sempre a aprendizagem para os dois e já estava mais habituado a provas no deserto, porque tinha feito o Africa Eco Race, o Marrocos já tinha feito mais provas, mas ele não. E foi algo novo para os dois e foi algo que nós hoje quando reunimos os nossos projetos encarámos de maneira nova para os dois e acho que fez uma história incrível porque geralmente vemos um piloto como o Alexandre. O Alexandre tem 25 anos e nem novo. Vemos o Alexandre iria arranjar um com o piloto muito provavelmente já tivesse sei lá 5 ou 6 Dakars porque iria ajudar muito. [00:07:05] Speaker A: Mais experiente, não é? [00:07:06] Speaker B: Pois... Claro que sim, sem dúvida. [00:07:08] Speaker A: É curioso vocês serem tão novos. Tu tens neste momento 20 anos, não é? [00:07:13] Speaker B: Sim. [00:07:13] Speaker A: E o Alessandro com 25. Portanto, são uma equipa super jovem e com excelentes resultados. Portanto, como é que se explica isso? É muito treino? [00:07:22] Speaker B: Eu acho que é muito trabalho e dedicação mesmo e aprendermos com os nossos erros. Eu, por exemplo, pessoalmente navegar sempre acho que tive jeito para a coisa, honestamente, porque uma pessoa no primeiro contacto vê logo como é que se sente. Eu senti-me ao confortável no zero pela primeira vez. Mas a minha, honestamente, o que me faltava era a nível mecânico. Eu não percebo muito mecânica no carro e bom que o piloto é extremamente importante. [00:07:44] Speaker A: E tu tiveste de ter mais formação nessa área. [00:07:47] Speaker B: Claro que sim. E foi a nossa ideia, foi pronto. Ok, então vamos para o Marrocos sem mecânico, só eu e tu. E treinávamos durante o dia, fazíamos 400km no dia e depois chegávamos à noite e era... Revisionávamos nós o carro, porque no Dakar temos etapas maratonas, temos as 48 horas, que este ano já não vão existir. Mas estamos independentes. Então, tínhamos que perceber o carro, e o X3 era um carro que eu já percebi bastante bem. O Alexandre também. O Alexandre está mais habituado à mecânica desde criança que eu, e juntos auxiliámos-nos uns aos outros, e pronto, estamos onde estamos. [00:08:20] Speaker A: Bernardo, há uma complicidade muito grande entre piloto e navegador. Como é que funciona essa comunicação dentro do carro, mesmo em momentos de stress? Como é que vocês conseguem manter calmos? Como é que se desenrola lá dentro? [00:08:34] Speaker B: Há momentos de stress no carro. Quem disse que nunca fosse um momento de stress com o piloto é porque está a mentir. É impossível. A Uruguaicar, por exemplo, é uma prova... Eu nunca tinha discutido com o Alexandre. Honestamente, até ao Dakar. Até que no Dakar nós passávamos 15 horas por dia juntos. Durante 15 dias. O cansaço está sempre com a mesma pessoa. É extremamente... É uma coisa que tem que saber lidar. Eu e o Alexandre creio que somos muito parecidos um com o outro. Também temos uma idade parecida, por isso ajuda bastante. Mas, como é lógico, aparece em momentos de calor. Mas é saber lidar com ele, esquecer e continuar a andar. Porque, sendo assim, as coisas terminam mal e é saber lidar com os meus momentos e creio que nisso sempre tivemos muito bem apesar da nossa idade jovem. Acho que o Alexandre honestamente para a idade que tem é muito maturo mesmo. O Alexandre eu falo com ele assim que estou a falar com o meu pai. Sim, sem dúvida que é saber lidar com os momentos porque acontecem. Não dá a cara, aconteceram várias vezes. A primeira semana honestamente não, foi uma semana um bocado perfeita para nós. Mas quando aparece um problema no carro, algo de género, ou eu perdi-me, porque é normal, mesmo estando um alto nível, as pessoas perdem-se. Essa habilidade com os momentos e, juntos, sair deles. E creio que foi nisso que eu e o Alexandre tivemos bem de vacas. [00:09:46] Speaker A: E é isso que faz uma excelente equipa. Bernardo, houve alguma prova, algum evento, se calhar, agora, a questão de, com apenas 20 anos, se teres sido campeão mundial de navegadores, é o ponto de viragem nesta tua breve carreira, nesta tua ainda curta carreira? Sentes que és tu um ponto de viragem, que é muita responsabilidade, mais pressão? [00:10:08] Speaker B: Honestamente, eu vou continuar a fazer o que tenho feito até ao momento, porque eu creio que o trabalho que tenho feito até agora tem sido um bom trabalho, sem dúvida. Caso contrário, não teríamos sido eu campeão do mundo e espero que o Alexandre, em Marrocos, seja campeão do mundo também. Epá, não sei mesmo o ponto de viragem em termos como é lógico o meu nome agora irá dizer mais algumas pessoas, mas e devido à minha idade, porque não é comum, eu recordo-me aos briefings e ficou a gente a ficar a olhar para mim e não me percebem que é que um rapaz de 20 anos estava a fazer honestamente, mas... é engraçado também, as pessoas também me acham que me ajudam muito por causa da minha idade. Tenho a agradecer muito a muitas pessoas do TN que me ajudaram. [00:10:47] Speaker A: Ah sim, sentes apoio. É que pelo facto de seres jovem podrias sentir alguma dificuldade ou aceitação dentro do grupo que existe, mas sentes que é um fator positivo ser jovem? [00:10:59] Speaker B: Sinto que sim, porque ao mesmo tempo que as pessoas olham para mim e veem se calhar o que eles Já foram ou queriam ser na minha idade e ajudam muito mesmo, como é lógico, há sempre caso à parte e pessoas que é indiferente, mas sinto que sempre fui muito auxiliado, sem dúvida. E só tenho a agradecer por isso, sempre fui muito bem acolhido, não tenho razão de queixa nenhuma de ninguém a nível nacional, nem a nível internacional. Por isso, acho que sim, acho que sempre fui bem recebido e estou muito grato por isso mesmo, porque eu recordo-me que, por exemplo, o primeiro briefing que eu fui em Béja, na corrida de Béja, tinha 18 anos na altura. E um rapaz chegou à minha beira, hoje em dia tem um aumento imenso, e o senhor já... O que é que está a fazer? E eu... Ah, eu vim para o briefing. E ele... Ah, mas veste aqui para representar quem? Eu... E eu assim... Ah, eu sou o piloto e ele ficou sem mandar para mim. Ok, sempre fui bem recebido mesmo, não tenho razão de queixa nenhuma. [00:11:50] Speaker A: Claro. Então a comunidade do desporto acolheu-te. [00:11:54] Speaker B: Sim, sim. [00:11:55] Speaker A: Vou-te perguntar agora um momento que tenha sido considerado mais difícil na tua carreira até agora. Uma falha, um erro de navegação. E como é que conseguiste aprender e resolver essa questão? Houve algum momento assim mais impactante? [00:12:14] Speaker B: Assim, o dia, se eu tivesse que dizer assim, o dia mais difícil da minha carreira, no Dakar, na etapa, opá, honestamente já não me recordo que etapa é que foi, mas recordo-me que foi na segunda semana de corrida, etapa 8 ou 9, e nós tínhamos uma especial de 650km com 300km de ligação, fizemos a especial, tivemos que trocar duas transmissões ao carro em especial, e perdemos meia hora, fizemos 200 km de dunas de noite. [00:12:47] Speaker A: Deve ser navegar quase em alto mar de noite. [00:12:52] Speaker B: Que é uma coisa que eu não desejo a ninguém. Depois perdemos-nos lá no meio, todos perdidos, porque a especial, honestamente, eu acho que o tempo foi um bocado mal calculado e eu acho que toda a gente no mínimo fez como que 20 km de noite. [00:13:07] Speaker A: Ok. Ok. Mesmo... [00:13:09] Speaker B: Membros da frente. [00:13:10] Speaker A: Exato. [00:13:11] Speaker B: Era uma especial que era gigante. Gigante. E eu, mesmo tendo problemas, ganhei a Especial do Campeonato do Mundo, por isso foi positivo. E ainda falhei um waypoint pelo caminho. Ainda consegui falhar um waypoint na noite, que nós estávamos lá. Até me recordo, andava eu e o Luís Portela, morais perdidos. [00:13:26] Speaker A: Sim, sim. [00:13:28] Speaker B: E eu andava lá no meio das dunas e mal fica de noite, já andávamos à procura do waypoint. E a primeira coisa que eu vejo é... Estávamos na pista da Duna para analisar as marcas e vejo um carro a vir um lado da Duna e vejo outro carro a vir do outro lado. Mas de frente. E eu assim... Opá, não me digas que eles lhe vão bater de frente. [00:13:47] Speaker A: Pois. [00:13:48] Speaker B: E uma sensação de incompetência porque não se pode avisar. E eu só vejo os dois carros a bater de frente ao meu lado e eu pensar assim... Foi logo assim o primeiro contacto. [00:13:56] Speaker A: E chegaram mesmo a bater. [00:13:58] Speaker B: Chegaram mesmo a bater. Foi logo o primeiro contacto de noite. E eu nunca tinha dado noite assim de carro. Ainda fui-me nas Dunas. E depois encontramos o waypoint a seguir, nós e o Luís Portela. E o Portela voltou para trás para encontrar o waypoint anterior. E eu disse, Alexandre, não, não. Eu fui penalizar 15 minutos e vamos embora daqui. E não vale a pena estar aqui à procura porque nunca mais vamos dar com ele aqui na noite e não por cima. [00:14:21] Speaker A: Claro. E foi a decisão certa? [00:14:23] Speaker B: Foi a decisão certa porque acabamos por ganhar a especial e a grande parte dos pilotos foram à procura desse waypoint. Eu penalizei 15 minutos, mas relativamente a esses 15 minutos foi muito menos tempo do que eles demoraram a encontrar o waypoint. Por isso acabou por ser uma decisão correta e sem dúvida foi um dia que ficou marcado na minha carreira, porque fazer duras de noite é mesmo uma péssima experiência. [00:14:42] Speaker A: Bernardo, é uma situação marcante, acredito. Conta-nos agora, há de ter sido tão marcante também correr agora em casa no Rally Ride. Qual foi a sensação de poder estar no teu país e a ter um resultado tão positivo? Conta-nos como foi a experiência, o que é que achaste do Rally Ride? Também algumas dificuldades, a etapa favorita, como é que foi este ano? [00:15:06] Speaker B: Gostei muito da corrida, é uma corrida que eu me divirto sempre muito. É uma corrida volta às bajas, onde nós basicamente fomos formados. Se me perguntam, e honestamente agora tenho um bocado de dificuldade neste tipo de navegação, comparativamente a anteriormente porque não tinha nenhum. Porque uma pessoa vem com o chip do deserto e não tem nada a ver. No deserto temos sempre margem, são notas muito longas. Aqui é notas a cada 200 metros, 100 metros, é sempre a dar notas. É um tipo de navegação um bocado diferente. [00:15:30] Speaker A: É mais exigente para o copiloto então? Tem de estar mais atento, certo? [00:15:35] Speaker B: Eu creio que sim, que é em termos... Eu não diria mais exigente, mas um nível de exigência diferente. Porque no deserto também é exigente e é um estilo de navegação diferente porque é andar geralmente por capos, aqui não há nenhum capo. São coisas diferentes, agora em termos para mim custou mais o rally ride, sem dúvida. Porque já não estava habituado e estar sempre a falar o dia todo é um bocado diferente. [00:15:59] Speaker A: Muita nota, muita nota a dar. [00:16:01] Speaker B: Sim, sim, muita nota mesmo, sem dúvida. A especial que eu gostei mais, na minha opinião, até foi a última especial. Porque fez-me muito lembrar o norte do país, lá na Amazônia. Sentia-me um bocado em casa. [00:16:13] Speaker A: Sentias-te mais perto de casa. [00:16:15] Speaker B: Exatamente. É o que eu estou habituado. É onde eu nasci a navegar. E foi a especial que eu gostei mais e, na minha opinião, foi a melhor especial do Rally Real de Portugal, sem dúvida. [00:16:23] Speaker A: Ótimo. E olhando agora para os próximos anos, quais são os teus objetivos? Sabemos que este ano ainda vais para Marrocos, para concluir o Campeonato do Mundo, de Rally Ride, e depois disso, onde é que te podemos ver? Já adiantaste que vais estar presente no Dakar, que é uma notícia positiva, e quais são os planos para o próximo ano, e de futuro, onde é que gostavas realmente de correr? Porque achamos que, tirando o Dakar, ou seja, o Dakar será a prova mais desejada de todas. [00:16:53] Speaker B: Sem dúvida, cara. Eu chamo-lhe o highlight do ano porque é uma coisa que nós treinámos o ano todo para estar lá, para estar aptos, para estar para ganhar. Honestamente sobre a próxima época não sei ainda, vamos ver. Muito provavelmente passará a fazer o mesmo que este ano, campeonato do mundo, mas como é lógico o Dakar correndo mal, que é uma coisa que estamos sempre feitos, que poderá haver outras opções, porque o Dakar é a corrida que mais pontos soma para o campeonato do mundo, soma-se o dobro dos pontos das outras corridas, por isso o Dakar correndo mal a tornar-se campeão do mundo outra vez torna-se muito difícil. Apenas o tempo dirá, honestamente, o que é que iremos fazer para o ano. Não sei. Honestamente, vamos correr de T4 para nos passar para outra categoria. Só depois de Dakar é que conseguirei concretamente dizer, olha, vamos fazer isto, fiz-te isto. Foi como esta ano. Esta ano o Dakar correu bem e nós decidimos, pronto, então vamos para o Abu Dhabi. [00:17:40] Speaker A: Ok, ok. [00:17:41] Speaker B: E fomos e continuamos sempre. E estamos aqui agora. [00:17:45] Speaker A: Claro, está ainda por confirmar, ainda não é certo, mas vamos fechar então aqui com uma questão que será qual é o legado que gostarias de deixar no mundo do desporto automóvel e que conselho é que podes dar a quem está a ouvir e gostava também de entrar neste mundo do motorsport e em específico na navegação. Uma vez que tens 20 anos, qual é a sugestão que podes dar? [00:18:13] Speaker B: A sugestão que eu poderei dar é que nós todos temos que começar e aprender. É um desporto que se tem que aprender e aqui, na minha opinião, corre na experiência. eu honestamente não tinha experiência nenhuma. Felizmente tive a possibilidade de encontrar um piloto que me apoiou sempre e que assumiu a minha inexistência de experiência, que foi o Alexandre, porque não era qualquer pessoa que pegava nunca o piloto e fazia este projeto assim. Em realidade, tenho que agradecer ao Alexandre por isso. [00:18:40] Speaker A: O que é que terá feito o Alexandre acreditar em ti? O que é que motivou essa parceria? [00:18:48] Speaker B: Esta parceria, na realidade, foi porque o Alessandro, na altura, estava sem equipa e eu, na altura, o meu pai, quando eu corri com o meu pai, o meu pai ia deixar de correr. O Friends Rally Team, que é a equipa da minha família também, que é a equipa onde o Alessandro corre, o Alessandro ficou sem piloto e eu fiquei sem piloto. E aqui começámos a fazer assim. Já tinha experiência de ZRT alguma, mas não tinha muita. E o Alessandro queria entrar para o Rally Rail. Então, o que é que nós pensámos? Em termos de mediático e em termos de patrocinadores, que é o que, neste caso, é o que alimenta estes projetos. Eu acho que, por ser com uma dupla de 25 anos, neste caso à altura ele tinha 23 ou 24, tinha 18, seria um projeto extremamente atrativo para toda a gente. [00:19:28] Speaker A: Claro. [00:19:28] Speaker B: Experimentávamos fazer a nossa primeira corrida juntos, correu bem, e íamos em primeiro lugar até 20km do fim, quando tivemos um acidente, mas faz parte. E foi assim que motivou, o Alexandre andava-se muito bem com o meu pai também, porque eram adversários, E na altura surgiu, e começamos a trabalhar juntos, fomos para o Marrocos treinar, e percebemos logo que encaixávamos bem, porque eu acho que o piloto e o pilote desde o início têm de se encaixar, senão não são uma boa dupla. Temos de ter personalidades semelhantes. No fundo foi isso que motivou a nossa relação e ainda não só temos crescido. Eu só sei andar com... só andei com dois pilotos. Andei com o meu pai e com o Alexandre. Como é lógico, já andei com outros pilotos, mas apenas em treinos. Andei com o Helder Rodrigues. Já tive a possibilidade de andar com o Xaleco López, mas assim, profissionalmente em corridas, apenas andei com o Alexandre como pai, por isso nem sei o que é andar com outro piloto, honestamente. Estou muito habituado ao Alexandre mesmo. No fundo, a aposta que nós fizemos se está a provar, ainda bem que foi feita. [00:20:21] Speaker A: Retorno à questão de qual é a sugestão que deixas a quem ouve e que gostaria de entrar para este mundo. Tu serás a melhor pessoa a poder responder porque és dos mais jovens e qual é o caminho que devem fazer, quais são os passos que devem tomar? [00:20:36] Speaker B: Primeiro lugar, como é lógico, toda a gente creio que começa pelas bajas. É a categoria de abertura, eu diria, cá em Portugal. Felizmente as bajas têm muitos pilotos e surgem oportunidades. Como é lógico, tudo provém de conhecimento e de pessoas que conhecemos, porque não é fácil lá nessa experiência entrar para este mundo. mas todos temos que começar em algum lado e se não tentarmos nunca iremos conseguir, por isso... Hoje em dia até temos na FMP a categoria SSV que é uma categoria bastante mais económica e que temos muitos pilotos mesmo. Talvez começar por aí seja uma boa opção. Eu não comecei na FMP, eu comecei direto na FUPAC. Mas porque o meu pai corria na FUPAC, já caso contrário, com certeza começaria pela FMP. E depois é treinar, treinar, porque há várias maneiras hoje em dia a nível digital de navegação. Eu comecei a navegar, por exemplo, na Playstation. O que é uma coisa um bocado incomum. Mas eu aprendi a navegar com o jogo do Dakar, na altura. [00:21:29] Speaker A: Ah, sei, sei. É curioso. [00:21:32] Speaker B: E acreditem que as pessoas começam a rir, mas eu digo que quando apareci a primeira vez no deserto e percebi as semelhanças que o jogo tem, as pessoas não tinham noção disso. É uma coisa muito semelhante mesmo com a loja em que estávamos sentados em casa, no nosso conforto. [00:21:47] Speaker A: Mas já a ti era familiar. [00:21:48] Speaker B: Sim. Em termos, por ser a teoria, como as coisas funcionam, os cabos, perceber como é que o roadbook funciona, os símbolos, analisar notas, é muito semelhante mesmo. hoje em dia quando estou em casa estou muito tempo sem corridas e não vou rá de vez em quando jogar o jogo. [00:22:01] Speaker A: É curioso Bernardo, o Paulo Fiusa disse-nos exatamente o mesmo, ele também teve relacionado com esse jogo e ele tinha esse jogo como referência, portanto é curioso vocês partilharem essa Essa é a opinião. [00:22:16] Speaker B: Isso, sem dúvida. Não sabia disso, por acaso. O jogo é mesmo muito parecido com a realidade. O jogo foi muito bem desenvolvido nesse aspecto. E ainda poderia ser um simulador mais realista no futuro e tem possibilidade para isso, com certeza. [00:22:28] Speaker A: Sim. [00:22:29] Speaker B: Mas para já, sem dúvida, é que é uma boa abertura para quem quer aprender a mesma essência. Aliás, quando comecei a navegar, tive amigos meus que também começaram a jogar o jogo por mim em casa. e hoje em dia sabem minimamente navegar. Eu às vezes, por exemplo, tenho a facilidade de ter o carnaval em casa do meu pai e às vezes ligo a um amigo no fim de semana e digo-lhe, vamos fazer um rolo de bolo com a FAF porque eu tenho rolo de bolo na minha zona. Eles vão a navegar, eu vou a conduzir, vamos nos divertir e também é um bom treino porque eu a conduzir às vezes consigo perceber. O coach ainda por vezes me diz que não percebe. É um ponto de vista diferente porque às vezes ser copiloto e entender as notas que o copiloto dá é um bocado diferente. Então, sem dúvida que estar às vezes a guiar os meus amigos, a dar-me notas, eu entendo o que é que eu pessoalmente, como piloto, consigo melhorar também. E ajuda-me muito. [00:23:19] Speaker A: É curioso. Então, podemos aqui dizer que a simulação é uma boa primeira base para entrar neste mundo, porque dá-nos os primeiros passos, seja na PlayStation, seja noutros qualquer simulador, e muito treino, não é? Basicamente é isso, Bernardo. Treinar muito para alcançar os objetivos. [00:23:39] Speaker B: Claro que sim. Hoje em dia vemos no desporto motorizado cada vez mais pilotos a passar a simulação para a realidade. Por isso não vejo porque não que o piloto também passe a simulação para a realidade. É mesmo muito parecido ver os pilotos a nível fórmulas e etc. com os simuladores. Hoje em dia o virtual torna-se realidade mesmo. É o melhor treino possível e não tenho dúvidas que se uma pessoa no jogo do Dakar, neste caso, consegue perceber bem como é que aquilo funciona, na realidade é muito parecido mesmo. E irá se adaptar bem. Depois como é lógico, o passar da virtual para a realidade muda um pouco na medida em que estás dentro de um carro corrido. Tens um nível de stress, um nível de adrenalina muito mais elevado. Mas a base está lá e ninguém te a pode tirar porque no jogo de Dakar tens os waypoints igual a Dakar. E eu aprendi como é que os waypoints funcionavam lá. Aprendi a fazer caps lá. Aprendi a ler notas lá. E se hoje em dia estou onde estou também foi por causa disso. E isso eu consegui fazer, também as outras pessoas com certeza conseguiram. [00:24:40] Speaker A: Obrigado, Bernardo. É então a mensagem que deixamos. Em nome do ACP, damos-te os parabéns por seres campeão mundial de navegadores e muito obrigado pela conversa. Já sabem, se quiserem ouvir outros podcasts e ver, basta passarem no site do Automóvel Clube de Portugal e onde têm lá uma secção que podem ver os episódios que já gravamos. Bernardo, muito obrigado e mais uma vez, parabéns. [00:25:07] Speaker B: Muito obrigado pelo convite, foi um prazer falar com vocês hoje. Muito obrigado.

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