Carlos Vasconcellos, o gestor que também é artista

Episode 152 September 10, 2026 00:32:00
Carlos Vasconcellos, o gestor que também é artista
ACP - Automóvel Club de Portugal
Carlos Vasconcellos, o gestor que também é artista

Sep 10 2026 | 00:32:00

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Show Notes

Na qualidade de pintor vai inaugurar no ACP a sua mais recente exposição intitulada “Tides” que reflete a sua paixão pelo mar. Neste podcast exploramos as narrativas deste gestor-artista.

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Episode Transcript

[00:00:05] Speaker A: Sejam bem-vindos a mais um podcast do Automóvel Clube de Portugal. Eu sou o Mário Vasconcelos e hoje tenho como convidado o empresário Carlos Vasconcelos. Muito obrigado por ter vindo. [00:00:14] Speaker B: Obrigado, Guilherme. [00:00:15] Speaker A: O Carlos Vasconcelo é um conhecido gestor mas desenvolve uma outra atividade artística que é a pintura. Mas isso já lá vamos. Já dirigiu empresas em mais de 20 países. Para onde é que andou? [00:00:29] Speaker B: Antes de mais, obrigado, é um prazer. Fiz um obrigado ao Movil como um local. Uma saudação especial também ao meu grande amigo Carlos Barbosa. que eu tenho muita amizade e muita admiração pelo trabalho que tenho feito aqui no Automóvel Colombo todos estes anos. Bom, voltando, aliás, cruzei-me com ele, éramos amigos, mas cruzei-mo-me com ele por um grupo que na altura era o grupo Portugal Telecom, e no Portugal Telecom, em determinada altura, eu tive a responsabilidade internacional. e o Grupo Portugal-Talegrão nessa altura tinha operações espalhadas por dezenas de países e portanto nessa qualidade vivi intensamente todo esse processo de internacionalização, tendo até vivido bastante tempo, mais de dois anos no Brasil, onde fui responsável pela maior operação que na altura era vivo, que tinha nenhuma colaboração. que pareceria com a espanhola telefónica. Portanto tivemos, enfim, todo esse período e vivi no Brasil. Para além disso, antes de estar no Grupo Portugal Telecom, eu estive num multinacional que era andando em Brasil Corporation, onde fiz uma longuíssima carreira e aí também fui responsável primeiro por por um país, depois por uma região, depois tive o borde mundial da companhia em Nova Iorque e, portanto, com essa minha função estive e vivi, algumas vezes cá e lá, outras vezes sem permanência, nos tais, na totalidade, mais de uma dúzia de países e a responsabilidade de operações, de facto, tenho mais de 20. [00:02:09] Speaker A: Mas fora das telecomunicações também. [00:02:11] Speaker B: Primeiro fora das telecomuicações. A Dunedin Bradstreet era uma das empresas mais conhecidas em dados. Quando ainda não se falava da gestão de dados, que hoje em dia é uma coisa absolutamente determinante, a Dunedin Bradstreet foi um monte de galera. Exatamente, hoje é o fundamental do data, data driven society e portanto eu tive responsabilidades. Até que depois acabei por ser CEO a nível mundial de uma das spinoffs que fizemos, a Dun Vlasic Corporation, em Nova Iorque. Fiz aí uma carreira de 13 ou 14 anos e depois tive, afim, coisas mais perentes, tive depois 7 anos no Grupo Portugal Telecom. [00:02:52] Speaker A: Por isso é que costumo dizer que é essa mesma diversidade que aprecia tanto no mundo dos negócios. [00:02:57] Speaker B: Fazer coisas diferentes, aprender sobretudo, porque quando se viaja, quando se vê outro mundo, quando se vê outras coisas, aprende-se. Apreende-se e aprende-se e isso é francamente bom. [00:03:08] Speaker A: É sempre bom. Para além da sua vida como gestor, dedica especial atenção à pintura, uma paixão que veio de longe. [00:03:17] Speaker B: Veio de longe, é verdade. Eu teria 38 anos e lembro perfeitamente que o primeiro quadro que fiz, por desgraça, eu sempre fui muito criativo, sempre gostei de ir à procura de onde é que se encontra alguma coisa que é diferente. E achei graça, sempre gostei muito das cores, sempre gostei muito da parte cénica, da parte estética da vida, etc. E achei que queria experimentar fazer alguma coisa, em termos de quadros, etc, arte. Arte, quadros, sempre. Isso só, porque eu também gosto muito de música, mas sou um zero em música, por exemplo. Pintei um primeiro quadro para um quarto da minha filha, que nessa altura teria seis, sete anos. E achei muito a graça, porque foi assim uma coisa. Ainda tenho esse colado. Durante anos esteve no quarto dela. Ainda o tenho. Enfim, tem um valor estimativo muito grande. E achei graça. E a certa altura as pessoas começaram a dizer, é engraçado o quadro, fiz mais um, fiz mais outro. muito experimental. Eu sou autodidata, já tenho tido vários desafios para... devias ir aqui, devias aprender ali, devias ir para a escola aqui ou ali. Realmente não é o que eu quero. Eu quero continuar a dar um grande dazo a esta minha liberdade criativa. e não que me tenha alguma coisa contra as técnicas, porque a técnica em muitas coisas é absolutamente determinada. Mas eu gosto de desenvolver, tenho desenvolvido o meu estilo e a minha arte de forma perfeitamente à atualidade e quero continuar. [00:04:52] Speaker A: Mesmo dessa forma, como é que classifica a sua arte? [00:04:56] Speaker B: É muito difícil porque... [00:04:58] Speaker A: Não é figurativa. [00:04:59] Speaker B: Não, não, não. Não é figurativa, embora em algumas peças tenha figuras. Não é figurativa no sentido do desenho, de fazer tipicamente uma reprodução de alguma coisa mais fiel possível da realização. Não é nada disso. É abstrata, moderna. Sim, eu diria que é abstrata, moderna, com algumas fases e algumas peças figurativas, mas claramente abstrata. [00:05:28] Speaker A: Mas nessa brincadeira inicial com que se iniciou na pintura, há relativamente pouco tempo, como passou a encará-la de uma outra forma, diria que mais séria? [00:05:39] Speaker B: Sim, tudo isto tem um percurso. Eu comecei a fazer isto, como disse, para brincadeira, A seguir, à brincadeira, comecei a fazer uns quadros que as pessoas gostavam e inclusivamente acabaram por ficarem alguns deles expostos nas paredes da minha casa, o que já era uma grande concessão e uma grande vitória. E depois tive uma coisa engraçada que uma grande parte da minha família e dos meus amigos começaram a dizer adoro os quadros, quero, faz-me um quadro, faz-me um quadro, e portanto estou entrando naquela brincadeira de quando alguém fazia anos ou alguma coisa, pessoas mais chegadas, começaram a ter quadros meus. E a partir daí é que começou a sensação de que isto é capaz de ter algum interesse, é capaz de haver aqui alguma coisa, porque as pessoas que visitavam as casas desses meus amigos, começaram a querer fazer, a querer encomendas, e a querer me comprar quadros, e a querer... E eu não tinha nada preparado para isso. [00:06:27] Speaker A: Isso levou-o a ser mais profissional, digamos assim, no ato de pintar. [00:06:34] Speaker B: Sim, levou-me a ser mais exigente comigo mesmo, no sentido de dizer, bom, a partir da altura que eu começo a vender arte, tenho a obrigação de fazer, de alguma forma, um certo esforço para que as coisas sejam pelo melhor e o mais profissional possível. Então fiz a primeira exposição quando fiz 50 anos, Fiz um jantar com um grupo de amigos grande e houve alguém que disse a ver, porque é que não fazes uma coisa engraçada que é antes do jantar serves um copo e expões ali um conjunto de quadros etc, não é original? E foi original, assim aconteceu, fiz um livrinho com o Isa. E a verdade é que as pessoas interessaram-se imenso, houve umas pessoas que quiseram comprar, houve uma série, enfim, percebi que havia ali alguma possibilidade de encarar isso de uma forma mais profissional. E nos últimos, diria, 4, 5 anos, até por evolução da minha carreira, eu trabalho em Private Equity, A gestão de negócios ligados ao real estate, ao imobiliário, nesta última fase da minha vida, e passei com a minha equipa depois de ter funções de criar empresa, fazer e desenvolvê-la, nos últimos 15 anos mais ou menos, e muito recentemente passei, há cerca de um ano, a ser o chairman com funções não executivas na Quest Capital, onde ainda continuo, muito ativo, mas sem aquela obrigação de ter equipas para dirigir, horas, etc, horários e tudo isso, e portanto isso permitiu-me começar a encarar a arte de uma forma muito mais séria, muito mais profissional e fazer duas coisas. Profissionalizar a comunicação daquilo que faço, isso é um ponto. Segundo, arranjar alguém que faça uma mentoria relativamente ao meu trabalho e, ao mesmo tempo, esse mentor, que tinha para mim um aspecto importante, ter um caráter e um interesse internacional. porque a verdade é que em tudo a minha experiência mostra isso. Em tudo Portugal é um país fantástico, mas é pequeno. Também do ponto de vista do poder aquisitivo há muitas pessoas que gostam de arte, mas provavelmente não têm a capacidade, como noutros países em que há maior poder de compra, para adquirir arte. E, portanto, claramente eu tinha interesse em fazer isto, deste profissionalismo ligado a possibilidades de encontrar oportunidades fora de Portugal. Até porque tenho encontrado que o mercado de arte em Portugal é um mercado muito fechado, muitos dos seus clubes, onde é que estás, com quem é que estás, és amigo de quem, as galerias são muito fechadas. É um ambiente um bocadinho... E vão [00:09:19] Speaker A: fechando à boca, não é? [00:09:21] Speaker B: E é um ambiente bastante fechado e muita desconfiança, sobretudo a artistas como eu, que não têm escola. Em que escola? A minha escola sou eu, tenho feito, tenho aprendido. Embora, devo dizer, por causa da internet é engraçado, vejo muitas coisas da internet, agora é uma diversão, todos nós vivemos na internet e estamos ali a olhar nos Facebooks da vida, isto e aquilo, e nos Instagrams, e há umas coisas engraçadas que aparecem e tal, não fecho os olhos, vou vendo e tal, mas realmente não como objetivo de aprender, mas de ver também outras experiências. Logo desde o princípio começámos a trabalhar isto um bocadinho mais profissionalmente, pensámos que fazia sentido fazer um processo de afirmação em Portugal, portanto eu já vou com esta ação para ir a terceira exposição, Agora vamos fazer esta de que falaremos. Há uns dias tive obras expostas na Flux Exhibition em Londres. em Marylebone, que é uma feira de arte já com alguma importância, e aí eu verifiquei uma coisa que é um bocadinho diferente de Portugal, que é nós mandamos as peças, as peças têm um júri, são selecionadas, independentemente de se o currículo é A, B ou C, as pessoas que estão a olhar para as obras procuram aceitar ou não as obras em função do seu mérito. E isso para mim é muito gratificante porque tive lá quatro quadros expostos no meio de artistas muito consagrados e portanto já com grandes carreiras e provavelmente outros também menos batidos neste mercado. [00:11:01] Speaker A: Também se verifica o inverso. Por vezes há artistas consagrados que falham nas obras. [00:11:08] Speaker B: Eu aí deixo-te dizer-te uma coisa, a parte boa e má do meu tipo de arte, e hoje sou muito consciente, é que se eu fizer a reprodução de uma fotografia e procurar passar à tela, é mais fácil alguém dizer está bom, está mau, é boa técnica ou má técnica. é mais fácil. No tipo de arte abstrato que é que eu me dedico, que é o que eu pinto, é muito mais a lógica do sentimento. Eu gosto, eu não gosto. E é difícil porque, de vez em quando, o Mário vê. Há quadros que nós conhecemos, de grandes pintores internacionais, a nível mundial, alguns vivos, outros já não, que nós olhamos Há casos conhecidos, que é uma tela toda pintada de uma determinada cor e tal, aquilo aparentemente para um leigo, aquilo não é nada, parece que alguém misturou ali uma lata de tinta e não tem nenhum valor. E esses quadros têm o valor pelo conjunto, pelo artista e por um conjunto de características que os experts conseguem ver, mas pela obra global, que podem valer centenas ou milhares ou milhões, algumas vezes, de euros. E a gente não consegue bem perceber-se, mas porquê? Eu sou capaz de fazer e eu pego numa... Não. não é assim, porque se fizer o seu valor é zero. Portanto é um conjunto grande de todo o trabalho que é feito, toda a evolução, todo o tipo de técnica que acaba por se usar, porque eu apesar de ser autodidata tenho a minha própria técnica, não é? E utilizo os meus próprios materiais. [00:12:30] Speaker A: Mas inspira-se em alguém? Tem mestres que o inspiram ou não? [00:12:35] Speaker B: Há particularmente o Hotoku que é um pintor que eu admiro muitíssimo. e que, de alguma forma, eu não posso dizer que me inspira. Quer dizer, inspira-me, mas algumas coisas que eu faço poderiam ser parecidas ou ter algum tipo de identificação com a obra do Rothko. Isso é uma grande imodéstia da minha parte dizer que era nem sequer uma tentativa. Nunca copio um quadro, nunca, que é o estilo. Está aqui um quadro, vou tentar fazer. Não, mas a inspiração vem, eu vejo isso como um tributo. ao Roth, que eu muito admiro, que acho que é um artista absolutamente extraordinário e é um exemplo de quadros que hoje são transacionados por largas dezenas de milhões e que eu acho que são fantásticos. De alguma forma, se eu posso dizer que há um tipo de pintura e um artista em particular, seria o Roth. [00:13:32] Speaker A: Sente-se muito seguro nas suas obras, nas suas pinturas? Mas uma tela em branco é sempre um desafio, não é mesmo? [00:13:40] Speaker B: Tínhamos já uma ideia... Sobre isso, duas respostas. Sim, é um desafio. Primeiro, quando se começa, eu tenho uma ideia do que é que quero fazer, mas muitas vezes acabo por divergir para uma coisa muito diferente do que aquilo que tinha na cabeça quando comecei. Porque é vivo, é um material vivo que está ali a nascer, está a ser feito e portanto está a ser criado e algumas vezes vem-se com uma ideia determinada e a certa altura sai uma coisa assim. [00:14:07] Speaker A: Olha como tu nos escreve. [00:14:10] Speaker B: Provavelmente é a mesma coisa, começa-se com uma determinada e o fim sai, depois a meada sai. A maior dificuldade que muitos pintores têm, pintores antes de serem consagrados, é o o julgamento, que é eu agora vou fazer uma coisa, para mim eu acho que isto está ótimo, vou mostrar e as pessoas acham que porcaria é esta, isto não vale nada, não gosto, não quero, não isto, não aquilo. E por outro lado também a necessidade, são duas coisas que vão, a necessidade de muitos artistas vivem, não é o meu caso felizmente, mas vivem da pintura, que é ou vendem ou se não vendem não têm tintas e não têm de comer. Portanto é uma situação de pressão muito grande. Eu sempre vi a pintura como um escape à minha vida profissional, uma coisa que eu gosto de fazer, uma coisa que me diverte, uma coisa que me inspira, que me dá muito prazer, e nunca vi a pintura como um meio de subsistência. É evidente que gosto de ser profissional e um bocadinho a expressão do que é dado não tem valor, é um bocado quase essa expressão. É o que é gratuito não tem valor e portanto eu vendo os meus quadros, acho que vendo preços que são corretos para o tipo de arte que faço e em comparação com aquilo que vejo no mercado, faço meu benchmark, etc. Mas não é para isso, quer dizer, a minha opinião. [00:15:30] Speaker A: Não vive para isso. [00:15:31] Speaker B: Não, isso dá uma grande segurança, que é, eu pinto, eu acho que alguns quadros eu próprio os destruo, porque não acho que os tenham, muitas vezes os destruo, ou os modifico, ou os altero, algumas vezes mesmo inutilizando, porque não sai nada que eu considere, isto tem algum ângulo de interesse estético, não me satisfaz. E portanto, é uma liberdade de exposição que eu desde o princípio sou seguro porque eu gosto quando a obra, para mim, passa o meu crivo, a partir daí há pessoas que adoram, pessoas que gostam, pessoas que não gostam. Aliás tem-se visto isto, quando fiz a última exposição, que faço agora em setembro, E foi exatamente há um ano, fiz a outra exposição que fiz antes desta em Londres, foi justamente no dia dos meus anos, juntei e fiz uma graça, fiz a exposição e convidaram os amigos para estarmos ali, beber uns copos e tal. E havia pessoas que chegaram, foram vendidos muitos quadros, mais de metade dos quadros que foram expostos foram logo vendidos. Curiosamente havia pessoas que chegavam e diziam aquele é o quadro, já está, é o que eu gosto mais e outras pessoas diziam Já vendeste aquele quadro, mas aquele quadro não é nada especial, o que eu gosto é daquele que está a voltar. Como é que o teu quadro não foi vendido? É muito subjetivo. [00:16:59] Speaker A: Voltando novamente à sua vida profissional enquanto gestor, a arte certamente já o ajudou a tomar decisões difíceis, ou não. [00:17:08] Speaker B: Não, decisões difíceis não. O judovo... Enquanto estava a pensar... Exatamente. O judovo eu sempre fui... sempre geri... quer dizer, toda a gente tem stress, hoje tem menos stress do que tinha quando tinha funções executivas muito exigentes, mas aprendia de alguma forma a gerir o stress. E outra coisa, evitar o stress que é evitável. Há stress que não é evitável, é o stress que é confesso por alguma coisa que não é a esperada. Agora, tudo o que é esperado, nós podemos gerir o stress, por exemplo. Porque é que eu hei de ir para o voo com 10 minutos e estar atrasado e estar com stress brutal de saber se perco o avião ou não. Fui meia hora antes, meia hora antes não faz diferença nenhuma e não corro esse risco. Porque é que eu se tenho uma apresentação importante que já sei que vou fazer daqui a 10 dias, vou esperar até o dia 9 para depois à meia noite acabar. Há muitas pessoas que trabalham assim sob pressão e sou exatamente o correto. Eu gosto de deixar para trás tudo aquilo que tenho de fazer para dizer relax, está feito. Na véspera passa-se uma vista de ódio, dispensa-se um pouco no assunto e está feito. Portanto, é também a lógica de gerir o stress. A arte e pintar foi durante muitos anos. e ainda hoje, mas embora com menos nível de stress, um anti-stress. Era como eu lhe chamava. Ah, mas as pessoas são um anti-stress. E é curioso porque, ultimamente, com a comunicação que tenho feito, as pessoas identificam-me já muito como pintor. E perguntam algo. Mas deixaste de trabalhar? Não, não, não deixei de todo trabalhar. Não, não, estou a fazer muitas coisas. Fazer coisas grandes. A Quest é uma empresa já, deve ser neste momento, dos maiores investidores em real estate em Portugal, portanto é uma coisa de grande dimensão. Continuo muito ativo, muito empenhado, a custar muito do que faço, sem essa responsabilidade da gestão do dia-a-dia que é muito, alivia. Alivia muito. Mas continuo muito ativo na parte da gestão e dos negócios e cada vez mais com o tempo para poder levar a arte de uma forma mais profissional. No fim do dia eu gosto do profissionalismo. Vivi, fui educado e toda a minha vida foi de ser profissional. Então se estou na arte tenho que ser profissionalista. [00:19:20] Speaker A: Olhando para a sua pintura, para as suas pinturas, o azul é uma cor que está quase sempre presente. [00:19:26] Speaker B: Por acaso que eu estou vestido de azul. É verdade. Não sei se sabe toda a gente, acho que tem uma cor, mas uma cor é o azul. Sem qualquer dúvida. A todos os níveis. Para mim é o azul. Independentemente de questões futebolísticas que eu não sou um grande dos futebols. [00:19:43] Speaker A: Mas há aqui uma coisa que... e quem nos acompanha vai depois perceber que o... enfim... porque é desta a minha afirmação. O Azul é mar. [00:19:53] Speaker B: O Azul é mar. [00:19:53] Speaker A: O Azul é mar. E tem a ver com a exposição que vai inaugurar, finalmente, aqui no Automóvel Clube de Portugal, no próximo dia 17. Fala-nos um pouco dessa exposição, do tema, porque é que o Azul volta a ter grande presença. [00:20:10] Speaker B: Esta exposição que se chama Tides, Tides em inglês, não é pretensiosismo, eu utilizo muito o inglês e as coisas porque de facto como tenho este Esta vocação de testar no mercado internacional, o inglês hoje é a língua de trabalho, portanto não é falta nenhuma de respeito pelo nosso português, de que gosto muito. É apenas uma questão de negócio. O negócio hoje em dia da arte é muito global e eu vivo também com esses objetivos. Portanto merezpo aqui várias razões. Primeiro, Isso tem a ver até com a minha história. O meu pai era oficial de marinha. Portanto, eu desde muito cedo, que o mar para mim era a forma de vida dele. Era oficial da Marinha de Guerra Portuguesa. Teve variadíssimos sítios em variadíssimos locais. E muitas vezes, logo desde pequenino, eu vivi o mar, vivi os barcos, vivi toda aquela ligação natural de quem segue o pai, vai com o pai aqui, vai com o pai ali, etc. Portanto, desde sempre eu tive uma ligação próxima ao mar. Depois sempre adorei praia, azul, mar, barcos. Hoje tenho um veleiro e sempre que posso, está um bocadinho de sol, ou estou na praia, ou estou no arco, ou estou no mar, ou estou, portanto, sou muito, muito ligado. Aliás, eu pinto praticamente De outra forma, eu quase que não pinto no verão, porque o verão, os meus tempos livres, são muito passados no mar. Portanto, há aqui uma ligação muito forte. Eu gosto muito de tudo o que o mar inspira. [00:21:42] Speaker A: E é bom porque vai haver inspiração. [00:21:44] Speaker B: Com muito respeito, porque o meu pai, como profissional que era, me ensinou a olhar para o mar. O mar parece uma coisa, mas às vezes é o ego, tudo muda. Num segundo passou uma situação maravilhosa, há tempestade perfeita e portanto tenho muito respeito, que é outra coisa que também é bom nós termos respeito pelos elementos e pensar isto é uma coisa que nunca se domina. De vezes parece, está calmo, mas outras vezes vem aí uma onda selvagem e pode nos levar. Portanto, eu gosto muito do mar, da cor, do azul, da espuma, é uma coisa que me inspira muito. Por outro lado, eu quando comecei a fazer a minha pintura, depois dessas experiências de várias coisas, eu utilizei várias técnicas, várias experiências, várias cores, etc., comecei a fazer uma série que foi muito apreciada por muitas pessoas que têm aliás os quadros desses na altura oferecidos em suas casas que eram muito nestes tons de azul, mar, etc. Portanto tem uma produção relativamente grande e consistente. [00:22:49] Speaker A: E em azulia também cores quentes, não é? [00:22:52] Speaker B: Sim, portanto não é necessariamente só o azul. Então pensei que para esta exposição iria ter dois tipos de obras. Iria ter um conjunto grande, talvez 10, 11 obras de mar. Umas antigas, outras menos antigas e outras muito recentes, acabadas há semanas. com uma consistência da parte do mar, do azul, dessa inspiração que para mim é tão forte. Para além disso achei interessante não ser apenas, já que não se faz uma exposição também todos os dias e todo o trabalho de preparação de fazer, então juntar também oito, dez obras diferentes que foram selecionadas pelo curador que trabalha comigo, que é o Pedro Jaime de Vasconcelos, Apesar de ser Vasconcelos, não é de família. E não foi através de meios familiares, mas primeiramente profissionais, quando andei à procura de alguém que pudesse apoiar. E escolhemos um conjunto de outras obras que achamos que fazem um bom complemento, para não ser só exclusivamente o mar e o azul. [00:24:05] Speaker A: Então é isso que as pessoas vão poder ver no próximo dia na sede do ACP, às 6h30 da tarde, se não me engano. E há pouco tempo fez uma exposição também lá fora. [00:24:16] Speaker B: Fiz em Londres. Foi essa que referia à povo. [00:24:19] Speaker A: Exatamente, já tínhamos falado. [00:24:22] Speaker B: Aí foram quadros diferentes. Aliás, foram uns de mar, um de homenagem ao rútico, de alguma forma, nessa linha, que é uma linha definida. Depois os outros dois tinham outros temas. É uma coisa que eu olho para o quadro e quando vejo que está pronto é a altura que eu sou capaz de pôr um título. Dizem-me que está pronto, já sou capaz de pôr um título. [00:24:49] Speaker A: Sempre com a arte a iluminar esta nossa conversa, gostaria de voltar novamente à sua vida de gestor, dedico especial atenção ao imobiliário neste momento. Como é que associa a arte ao imobiliário? [00:25:03] Speaker B: O ideal seria que o imobiliário, que todo o imobiliário que é produzido fosse uma peça de arte. Estamos muito longe disso, particularmente com as enormes carências que nós temos neste momento de habitação em Portugal. Diria que qualquer coisa que se faça é necessária e onde possam viver pessoas é interessante, e ainda assim tenho aprendido na minha vida ligada ao imobiliário, 15 anos, portanto antes disso os meus outros negócios não tinham a ver, no fundo a minha ligação ao imobiliário é fundamentalmente investimento e financeira, mas tem uma parte estética que eu prezo muito, cuido muito e aprendi que mesmo Por vezes, quando fazemos, nós trabalhamos para segmentos muito diferentes, a todos os níveis, fazemos escritórios, fazemos hotéis, fazemos muito residencial, portanto, todo o tipo de real estate, mas aprendi que mesmo em projetos com pequeno orçamento, em que nós estamos a dirigir para uma classe em que não vamos pôr acabamentos caríssimos e coisas, porque é para tentar vender um perfumado. Um real estatemente luxo. Não ao segmento luxo, ao segmento da classe média, etc, mas portanto mesmo em projetos relativamente mais modestos em termos de enforcimento dos materiais, etc, consegue-se fazer, desde que haja o cuidado estético, conseguem-se verdadeiros milagres. E por vezes, isso também tenho aprendido, que eu leio negativa, há projetos queríssimos que nós olhamos e vemos materiais caríssimos, objetos caríssimos. [00:26:42] Speaker A: Mas que? [00:26:42] Speaker B: Mas que? E a gente diz e, de facto, faltou arte. Algum dia faltou arte. E eu procuro transpor este a meu sentido estético, que eu de facto sou muito observador, gosto muito de ver, sou muito crítico no sentido não de criticar tudo e todos, mas sobretudo crítico comigo e nas coisas que faço, procurar encontrar espaço para, em qualquer coisa que se faz de imobiliário, seja um hotel, seja um apartamento, seja um escritório, deixar que a parte estética tenha um papel importante, sem que isso pese especificamente um incremento no orçamento, que é uma, no fundo, a arte, Pode-se encontrar arte em praticamente tudo. Há quem diga que viver é uma arte. É um pouco isso. [00:27:30] Speaker A: Então acha que isso tem sido uma receita de sucesso, quer para os compradores, quer para os investidores? [00:27:37] Speaker B: Eu diria que certamente não faz mal ter um aspecto estético cuidado. Acho que seguramente é um elemento importante. [00:27:46] Speaker A: E os gostos, como é que são entre portugueses e estrangeiros? [00:27:49] Speaker B: Em termos de... [00:27:52] Speaker A: No imobiliário, pessoas que se interessem pela compra, pelo investimento puro e duro, como é que têm? [00:28:00] Speaker B: No imobiliário eu acho que os portugueses são tão exigentes ou tão requintados como os estrangeiros. [00:28:08] Speaker A: Mas fala na arte. Quando imprima a arte... Estou-me a referir [00:28:11] Speaker B: a imobiliário em geral, com uma diferença. Em geral, muitos dos estrangeiros que compram ativos em Portugal, eu trabalho em Portugal e Espanha sobretudo, há muito mais pessoas com a capacidade de poder adquirir, têm maior poder de compra. Portanto, embora os portugueses tenham o mesmo gosto, o mesmo interesse, muitas vezes não conseguem chegar. Infelizmente nós sabemos o que é a situação do poder de compra do nosso país versus muitos brasileiros, agora muitos americanos, muitos brasileiros, pessoas francesas, etc, que têm de facto muito mais de pockets do que em geral têm os portugueses. Portanto essa é uma diferenciação. Agora ligando à parte exclusiva dos quadros, eu acho que não há qualquer diferença. Tanto tenho assistido, até as minhas experiências que são ainda iniciais mas cada vez quer desenvolver mais a nível internacional, tem mostrado que não há qualquer diferença entre o que é A apreciação que faz um português do que faz um inglês ou francês. [00:29:21] Speaker A: Acho que é pelo facto das tendências serem universais hoje em dia. [00:29:26] Speaker B: Acho que é as tendências serem universais e o tipo de arte que eu faço ser muito pessoal. Aquilo é muito... Gosta ou não se gosta, quer ou não quer. Depois, posso ou não posso comprar, tenho na parede para o meu quadro. Mas é mais por aí. [00:29:45] Speaker A: Os quadros que imprime nessas decorações ficam parte integrante dos imóveis? [00:29:52] Speaker B: Não, não, não. [00:29:53] Speaker A: São para tirar depois? [00:29:54] Speaker B: Não, nós o que eu tenho feito é com determinados produtores quando lançam determinados projetos e fazem aquelas, tipicamente os open houses que é um dia convidar um conjunto de investidores potenciais investidores, potenciais compradores, para um ou dois determinados apartamentos. E aí, por vezes, estão quadros meus com o objetivo de mostrar a outra forma. Nós, quando pintamos, gostamos de que a nossa arte seja vista, não é? São casas vazias. Portanto, a arte aí tem um impacto muito grande, uma tela grande. [00:30:31] Speaker A: Aquilo como galeria, não é? [00:30:32] Speaker B: Exatamente, há uma galeria por um dia, dois ou três dias, que são os dias dos Open Days. Depois disso, o que tem havido é... Algumas pessoas, quando compram, querem manter e querem adquirir um ou vários dos quadros, já tem acontecido, e outras vezes pessoas que lá vão, que não vão, não compram o apartamento, fica ali o contacto e já tem vendido. [00:30:56] Speaker A: E ficam a conhecer. [00:30:57] Speaker B: Ficam a conhecer e já têm comprado. Agora, por acaso, ultimamente, o último quadro que vendi foi justamente numa situação dessas. Uma pessoa foi, ficou muito open data, vai ver, apaixonou-se por um determinado quadro, E passado o dia... [00:31:09] Speaker A: Não foi da série das marés, pois não. [00:31:11] Speaker B: Não foi da série das marés, que essas não estavam... Estão guardadas para aqui. Estão guardadas para o automóvel clube. E depois passados uns dias, quando ia passar três semanas, disse-se que é o quadro e tal, já tenho o sítio onde o pôr, quero comprar-lo. E já está, nessa parede. [00:31:30] Speaker A: Carlos Vasconcelos, muito obrigado por ter vindo. [00:31:32] Speaker B: Foi um enorme prazer. [00:31:33] Speaker A: E ter dado-nos a conhecer a sua vida curiosa como gestor e artista. E obrigado a quem nos acompanhou nesta conversa. Podem ver e ouvir mais podcasts do ACP nas plataformas YouTube, Spotify e Apple Podcasts. [00:31:49] Speaker B: Obrigado. Obrigado, Mário, foi um prazer.

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