Episode Transcript
[00:00:05] Speaker A: Sejam bem-vindos a mais um podcast do Automóvel Cup Portugal. Sou o Mário Vasconcelos e hoje temos como convidado Luís Cunha, diretor do ACP Clássicos. Luís, muito obrigado por ter vindo.
[00:00:15] Speaker B: Um gosto.
[00:00:16] Speaker A: Luís, vamos falar de uma das provas que mais marcou o desporto do automóvel em Portugal, o circuito de Cascais, cujas últimas corridas aconteceram há justamente 60 anos.
É uma efeméride.
[00:00:29] Speaker B: É verdade. É interessante, talvez, perceber como é que aparece o Circuito Cascais.
Aparece em 63 e o Automóvel Clube Portugal em 63 fazia 60 anos.
e propôs à Câmara de Cascais e ao Turismo de Cascais, nessa altura o Turismo da Costa do Sol, montar um circuito automobilístico na Vila.
Não era alheio a isso o facto do Circuito da Boa Vista ter acabado há pouco tempo, portanto havia falta de circuitos cidadinos, E foi assim que o Circuito de Cascais começou.
[00:01:15] Speaker A: E justamente havendo falta de circuitos em trajeto urbano na época, teve uma vida muito curta, quer dizer, foram quatro anos.
[00:01:24] Speaker B: Não, foram 4 anos mas foram muito intensos e marcaram de facto o automobilismo nacional.
A edição de 63 eu diria que foi uma edição experimental porque foi decidida muito em cima do acontecimento e como tal até foi mais limitada no tipo de corridas. E foi, digamos, a preparação para o ano de 64, onde a coisa já arrancou com mais profissionalismo, com mais intensidade. 63 tem uma particularidade que o circuito fazia-se num sentido Inverso aos ponteiros do relógio que seria alterado depois em 64 e prolongado em 64. O circuito em 64 tinha mais de 400 metros que em 63.
[00:02:19] Speaker A: Joga que nessa altura, quatro anos depois, já a segurança estava, tanto para pilotos como para o público que assistia a essas corridas, estava ameaçada de algum modo para, enfim, se determinar.
o fim do circuito de Cascais.
[00:02:38] Speaker B: Isso teve seguramente a ver com isso, porque houve um crescendo entre 63 e 66, quer do número de participantes, quer do tipo de automóveis que correram, e a partir da altura em que a Fórmula 3 passou a ter lugar no circuito de Cascais, as condições de segurança Não eram, de facto, os ideais. E, portanto, em 66, o ACP decidiu... Porque mesmo a edição de 67 esteve marcada.
Mas depois decidiu-se não se fazer, exatamente pelas condições de segurança.
E... E hoje podemos pensar que isto, no fundo, esteve nas gemas da criação do Autódromo do Futurismo.
[00:03:33] Speaker A: Foi nessa altura que se começaram a adquirir os terrenos, na década de 60, para a construção do Autódromo, que depois chegou pronta em 64.
mas essa posição do ACP, uma vez mais, em relação à sua preocupação com a segurança, era uma preocupação sempre constante na história do clube, não é?
[00:03:55] Speaker B: Claro, tal como hoje, não é? Mantém-se. De facto, isto eram circuitos que, num ambiente urbano, As condições não eram as propícias para a prática da modalidade.
Infelizmente não há notícias de acidentes. Aqueles acidentes que houve foram acidentes de
[00:04:16] Speaker A: prova, sem qualquer tipo de consequência. E ainda bem.
[00:04:18] Speaker B: E ainda bem, claro.
Mas...
o ACP teve essa visão de que, enfim, não esteve à espera que acontecessem problemas graves para tomar essa decisão.
[00:04:31] Speaker A: Até porque estava praticamente no auge dos desportivos, dos modelos desportivos nos anos 60.
Ligam-se sempre aos desportivos.
[00:04:40] Speaker B: Eu diria que a Fórmula 3 foi determinante para essa decisão porque eram de facto Carros rapidíssimos. E o circuito tinha essa particularidade desde o início.
Era um circuito muito técnico, mas não era um circuito muito rápido. Quer dizer, tinha algumas limitações desde sempre.
[00:04:59] Speaker A: Nesse ano, em 1966, correram, portanto, aconteceram as segundas corridas de Fórmula 3 em Portugal. Que foram ganhas por Jürgen Dübler, salvo erro.
Teve quatro provas essa edição desse ano. Teve a taça doutor Augusto Vaz, que tinha sido um diretor do ACP recentemente falecido nessa época, uma prova que foi vencida pelo piloto Luís Fernandes.
Teve depois a taça junta do Turismo da Costa do Sol, para automóveis de turismo, vencida por Carlos Gaspar, e a Taça Câmara Municipal de Cascais, para automóveis de grande turismo, onde venceu o grande António Peixinho.
Houve ainda a Taça Automóvel Clube de Portugal, integrada no grande prémio de Fórmula 3, vencida pelo Jürg Dubler. Foram 63 participantes.
Era um número assinalável para a época.
[00:05:59] Speaker B: Sim, era um número assinalável. E o ano de 1966, de facto, foi um ano da consolidação internacional do Circuito Cascais. Portanto, a participação internacional, principalmente na prova de Fórmula 3, já era uma participação muito significativa. E, portanto, estavam criadas as condições, não foram as questões de segurança, estavam criadas as condições para o circuito permanecer.
Até porque é um pouco como se sente agora, que destes circuitos urbanos e numa zona cosmopolita como Cascais, era o casamento perfeito. O automobilismo com a vida social que então Cascais e o Estoril tinham na altura era...
[00:06:47] Speaker A: É curioso verificar que era um circuito curto, 3 km de extensão.
[00:06:52] Speaker B: 3 km e 400 salveiros.
[00:06:53] Speaker A: mas os concorrentes ajudavam, 30, 40, 50 voltas, provas que demoravam entre uma hora e uma hora e tal.
[00:07:02] Speaker B: E aí aproveito para destacar um piloto que se mutilizou nessa década e que em particular em Cascais era um piloto muito eficiente, que é o Manuel Geão. que na época era conhecido por ser particularmente dotado neste tipo de carros mais pequenos que corriam na categoria de turismo, nomeadamente os Mini Cooper e os Mini Cooper S. e de facto teve belíssimos resultados.
Voltando um pouco atrás, venceu, acabou por lhe ser atribuída a vitória na corrida de turismo em 1963, porque o piloto que tinha passado a meta em primeiro lugar acabou por ser desclassificado porque a gasolina que estava a usar não era regulamentar, tinha o mesmo índice da rotana mais alto. e foi desclassificado por isso. E houve depois um incidente idêntico em 66, também com o Manoel Geão, que houve também um piloto, houve mais um piloto, e aí foi, enfim, por atitudes pouco desportivas em pista, acabaria por ser desclassificado também. Portanto, se quisermos escolher um piloto que nestes 4 anos de Circuito de Cascais, eu diria que o Manoel Geão é aquele que teve mais que se notabilizou mais durante este período em que durou o Circuito Cascais.
[00:08:40] Speaker A: Para a edição de 66 escolhi três pilotos, que é uma forma até de os homenagear, lembrando que é o António
[00:08:49] Speaker B: Peixinho, Com o Peixinho, sei que ele, em 63, estava para alinhar com o Lotus Cortina que tinha acabado de comprar, mas como o carro ainda não estava homologado, acabou por alinhar num Jaguar Mark II.
que era um carro pesado para o circuito, portanto a coisa até nem correu como ele gostaria.
[00:09:11] Speaker A: Mas o António Peixinho é um nome que fica para a memória, mesmo dos mais jovens.
[00:09:17] Speaker B: Sim, António Peixinho era um piloto muito versátil. Aliás, era um pouco... muitos desses pilotos portugueses que participaram no circuito de Cascais tinham, de facto, essa característica. Estou a pensar, por exemplo, no Ernesto Neves, que também era um piloto que se adaptava rapidamente a qualquer tipo de automóvel. Eram pessoas, de facto, muito dotadas e haviam uns quantos gentleman drivers, na altura, que tinham essas características.
Corriam bem em qualquer tipo de carro.
E o Peixinho era um deles, de facto.
[00:09:50] Speaker A: Acho é que isso foi perdendo depois, com a prova que construímos.
[00:09:53] Speaker B: A penalização, a coisa... Enfim, estamos a falar mais de atletas do que, hoje em dia, do que estas figuras do automobilismo dos anos 50, 60 e 70, que eram de facto... Corriam mesmo por gosto e tinham... e usavam ouvido, não é? Portanto, era outra filosofia.
[00:10:14] Speaker A: Uma outra figura que se destacou também nas corridas de 1966, com uma curiosidade, o Carlos Gaspar.
[00:10:21] Speaker B: Ah, sim, sim.
[00:10:21] Speaker A: Viria depois a ser comissário técnico do ACP.
Uma coincidência muito interessante.
[00:10:27] Speaker B: E o Carlos Gaspar tinha a sorte também de ter o pai por trás, que era uma figura importante no comércio de automóvel do Porto. Tinha representado uma série de marcas, como a Ferrari, a Jaguar. O Carlos Gaspar, nesse ano, correu no auto do meu GTA, que era, de facto, um carro muito competitivo para a época. Era...
Era um bom piloto.
[00:10:56] Speaker A: Luís Fernandes foi outro piloto que se destacou muito nessas corridas.
Participações em provas como Vila do Conde, Montes Claros, Granja do Marquês.
E até em Luanda, ele acabou por morrer num acidente em Vila do Conte, que foi feita depois de uma grande homenagem, em memória desse grande piloto.
[00:11:19] Speaker B: Voltando também um bocadinho atrás, a Granja foi uma solução de encontrar uma alternativa para o circuito de Crescais, em segurança. Portanto, quando falamos Granja, falamos na base aérea nº 1, Salvaire de Sintra, a Granja do Marteguês. e que tinha condições, como pista de aviação, tinha condições ideais para o automobilismo.
Nós, ACP Clássicos, em 2005, se não me falha a memória, comemorámos os 40 anos sobre as corridas da Granja do Marquês e voltámos a trazer à Granja do Marquês a competição automóvel num fim de semana que foi absolutamente diluviano, portanto não foi assim de muito boa memória.
[00:12:05] Speaker A: Porquê que nunca se pensou em transitar o Circuito de Cascais para o Autódromo?
[00:12:10] Speaker B: Enfim, as coisas alteraram-se, não é? Estamos a falar em 66 e o autódromo é inaugurado em 72, portanto estamos a falar de 6 anos que fizeram alguma diferença naquilo que era a realidade do automobilismo. O tipo de provas que se fazia no circuito de Cascais Mais uma vez, era um circuito muito sinuoso, mas relativamente... não era um circuito rápido.
O Autódromo do Estoril era um autódromo com tudo aquilo que... o melhor que havia na altura, não é?
[00:12:45] Speaker A: Mas tirou muito ele à Vila de Cascais, não é?
[00:12:47] Speaker B: Sim, claro. Aquilo que tem acontecido nos últimos anos é exatamente trazer novamente o automobilismo para junto do público e, portanto, os circuitos urbanos, vimos isto há pouco tempo agora em Madrid, não é?
[00:13:02] Speaker A: Como é que se vai conciliar a segurança?
São problemas que vinham de trás, não é? Eram preocupações que já têm décadas.
[00:13:09] Speaker B: Sim, e que continuam. E, obviamente, hoje quando se monta um circuito cidadino, urbano, o custo da segurança é uma coisa completamente diferente daquilo que é no autódromo que está preparado desde a sua construção. É bastante onoroso fazer um circuito urbano. Nós também, lembro-me de há uns quantos anos, tentámos recriar o Circuito de Montes Claros, que era à semelhança do Circuito de Cascais. Era um dos circuitos, vamos ver aqui, na região de Lisboa. As condições, 20 anos depois, eram proibitivas porque era, de facto, aquilo que se fazia nos anos 60 em termos de circuitos montes claros, uma estrada destas sinuosas, estreitas, e que hoje era impossível ter competição automóvel lá novamente. Desistimos da ideia rapidamente porque não havia qualquer hipótese.
[00:14:17] Speaker A: Para terminarmos a nossa conversa, eu gostaria que comentasse quatro frases acerca do circuito de Cascais.
Ele trouxe o automobilismo internacional para Portugal?
[00:14:27] Speaker B: Sim, especialmente para a zona da Grande Lisboa, especialmente para Cascais, foi de facto muito marcante.
[00:14:35] Speaker A: Até que ponto é que ele deu experiência a pilotos, a equipas e a organizadores?
[00:14:41] Speaker B: Parte destes pilotos que nós falámos, bastante eficazes no circuito Cascais, pelo tipo de condução que o circuito exigia, Foi uma escola para muitos deles.
Aliás, no último ano, Cascais, em 66, portanto, Cascais teve uma prova de Fórmula V que era, digamos, das provas de Fórmula de monologuares mais acessíveis.
O circuito foi um bom palco para esse tipo de monolugares.
[00:15:22] Speaker A: E até que ponto é que o circuito de Cascais promoveu Cascais e Portugal internacionalmente?
[00:15:28] Speaker B: Pôs de facto Cascais no mapa... Esportivo. No mapa também de esportivo.
[00:15:33] Speaker A: E não só, e turístico.
[00:15:34] Speaker B: Sim, turístico já tinha grande notoriedade desde a altura da Segunda Grande Guerra. mas consolidou, de facto, a imagem de Cascais.
Porque havia aqui uma relação muito grande entre o ACP, a Câmara de Cascais e a Junta de Turismo da Costa do Sol. Foi aqui uma triangulação que resultou bastante frutuosa.
durante este sanzo em que o circuito durou.
[00:16:04] Speaker A: Luis Cunha, muito obrigado por ter aceito este nosso convite. Obrigado por estarem desse lado.
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