Conduzir não tem idade, mas exige avaliação

Episode 139 July 09, 2026 00:27:33
Conduzir não tem idade, mas exige avaliação
ACP - Automóvel Club de Portugal
Conduzir não tem idade, mas exige avaliação

Jul 09 2026 | 00:27:33

/

Show Notes

O que deve determinar se um condutor com carta de condução no ato da revalidação pode ou não continuar habilitado?  Neste episódio, o médico Rodrigo Costa e Silva e Humberto Carvalho, diretor da formação ACP, falam sobre condução em idade avançada.

View Full Transcript

Episode Transcript

[00:00:06] Speaker A: Sejam bem-vindos a mais um podcast do Automóvel Clube Portugal. Sou o Mário Vasconcelos e hoje o tema da nossa conversa vai ser sobre condução em idade avançada. Para isso tenho em estúdio dois convidados, o Dr. Rodrigo Costa e Silva, médico, e Humberto Carvalho, responsável pela área da formação do clube. Sejam bem-vindos. Muito obrigado. [00:00:25] Speaker B: Obrigado. [00:00:28] Speaker A: Como clínico e responsável pela realização de exames médicos para a revalidação da carta, existe uma série de questões que é preciso terem atenção em condutores de idade avançada, mas há problemas que começam a surgir mais cedo, como por exemplo a cuidado visual que a partir dos 40 anos começa a diminuir. [00:00:48] Speaker B: Sem dúvida, sem dúvida. A cuidade visual normalmente é claro que pode acontecer que pessoas muito mais novas e muito mais jovens tenham necessidade de ter óculos para melhorarem a sua cuidade visual. Mas logicamente não é só nas pessoas de idade que temos depois problemas e é claro que há muito mais doenças e patologias em pessoas de idade do que nessa idade. Mas na realidade, a partir dos 40, não há dúvida que há uma maior possibilidade de que as pessoas fiquem com óculos. Aliás, basta olhar para as pessoas com 40, 50 anos e todas elas, normalmente, ou uma grande porcentagem delas, precisam de óculos para poder ter uma boa qualidade de visual. [00:01:35] Speaker A: E a partir dos 50 anos, que sintomas é que se deve estar atento para prevenir e manter uma condução em segurança? [00:01:45] Speaker B: Também é aquilo que eu dizia, ou seja, com a idade evidentemente que vão aparecendo mais situações e mais doenças que podem efetivamente e que têm obrigatoriamente que ser identificadas e que podem influir na condução. Mas a partir dos 50 é uma idade onde começam a aparecer mais situações que podem dar alguns problemas. Que situações são? A diabetes, a hipertensão, determinadas situações com mais idade, determinadas situações neurológicas importantes, mais jovens, situações de epilepsia, situações de doentes que têm depois alguma incapacidade para conduzir, mas logicamente que nessa idade Ainda não há uma grande, grande quantidade mas basta haver alguns para necessitarmos efetivamente de, quanto mais precocemente nos encontrarmos nesses problemas, mais precocemente podemos corrigi-los ou orientar a situação e ajudar essas pessoas na condução. [00:02:59] Speaker A: O senhor acha que a reavaliação a partir dos 50 anos não devia ser já implicar exames médicos presenciais? [00:03:07] Speaker B: Aqui há um tema que é isso mesmo, ou seja, nós normalmente fazemos exame médico para a entrada do condutor quando tem 18, 19 anos, 20 anos. E depois há um hiato enorme até haver uma nova avaliação médica aos 60. e, portanto, é um hiato muito, muito grande em que podem perder-se muitas situações. Portanto, eu penso que, efetivamente, a partir dos 50 é possível que nessa validação não fosse só administrativa, mas que efetivamente pudesse haver uma avaliação médica para perceber como é que as pessoas estão. Claro que todos nós hoje em dia estamos numa vida muito ativa, com grande pressão, e estamos cada vez a viver mais anos. e, portanto, começam a aparecer determinadas situações que têm de ser identificadas. [00:04:01] Speaker A: Humberto, isso seria muito importante, não é? Os exames médicos presenciais para, enfim, a segurança rodoviária. [00:04:07] Speaker C: Sem dúvida. O Dr. Rodrigo dizia, e bem, não existe um quadro clínico geral aplicável a todas as pessoas, mas existem sempre questões que são mais marcadas numa determinada fase do que noutra. Ora, a pedido médico é necessário e fundamental para que se possa conduzir em segurança. Se uma pessoa fez um exame inicial e foi validada aos 18, 19, 20 anos, a partir daí a pessoa naturalmente não tem mais nenhuma avaliação. Se chegado aos 60 anos fizer a sua primeira avaliação médica, quer dizer que decorreram 40 anos, certamente com um historial clínico que até pode ter importância e interesse e impacto direto na condução, e a pessoa nunca foi avaliada. Esta é uma das questões que o ACP, desde há algum tempo, propõe e aponta como uma medida a corrigir e a melhorar em termos de sistema rodoviário, que é garantir que existe uma possibilidade de, a partir de determinada idade, começarmos a fazer avaliações médicas. Nomeadamente, na nossa proposta, achamos que A partir dos 40 anos, devido a algumas alterações, nomeadamente na parte visual, era necessário haver essa validação médica. Temos que olhar para isto nesta lógica de equilíbrio entre o que é um direito do cidadão, que é o direito a conduzir, que de facto é um direito, mas também aquilo que deve ser o dever de garantir que quando está a conduzir está nas melhores condições. Quando há uma avaliação médica, é uma forma de todo o sistema ter mais certeza e mais confiança de que a pessoa está em condições de conduzir. E isto era decisivo. [00:05:43] Speaker A: E não deveria ser mais cedo ainda? [00:05:44] Speaker C: Nós apontamos para que sim. Aliás, a legislação até tem algumas situações em que ela permite e obriga avaliações mais precoces. Nomeadamente, portanto, pessoas que têm um quadro clínico muito específico, o médico pode impor e, portanto, o IMT depois estabelece e aceita como naturalmente válida a indicação médica para que haja um tipo de revalidação com outro período. Nomeadamente nos pesados, portanto aquilo que nós chamamos muitas vezes dos profissionais, categorias 6, categorias 10, a sua avaliação médica, portanto para processo de renovação de título de condução, inicia-se logo aos 40. E isto é muito importante. Se nós, nos profissionais, e bem temos este cuidado, nós temos que olhar também e perceber que num automóvel ligeiro, que é a maioria dos condutores, também deve ser necessário o mesmo cuidado, porque queremos é um meio cada vez mais seguro. [00:06:35] Speaker A: centrando ainda nos condutores de idade avançada, a atualização de conhecimentos também é importante. [00:06:43] Speaker C: Sem dúvida. Essa é uma outra parte. Nós, inclusive, na formação inicial de condutores, a legislação diz que um dos requisitos para que o candidato seja admitido à formação é a sua aptidão física, mental e psicológica. naturalmente que, comprovada essa aptidão, eu passa depois para a fase da aprendizagem. E ele só se torna condutor quando passa num conjunto de provas, que nós chamamos a prova do exame de condução. Ora, eu faço a minha prova aos 18, aos 19, aos 20, faço numa determinada idade, e depois eu vou passar toda uma vida enquanto condutor em que não tenho nenhum tipo de atualização, de renovação de conhecimentos, quando naturalmente toda a minha volta vai mudando. os veículos não são necessariamente os mesmos, as próprias vias são diferentes, têm características diferentes. Inclusive é toda esta questão da tecnologia que vai sendo introduzida também na condução, obriga a que os condutores vão também olhando com outros olhos para a atualização de condutores. Há leis, há sinais, há características técnicas dos veículos que merecem e que exigem mesmo uma nova atualização e um novo olhar para isto por parte dos condutores. [00:07:54] Speaker A: Pela sua experiência, Acho que as pessoas estão naturalmente sensíveis para essa questão, preocupadas. [00:08:02] Speaker C: Acredito que muitas delas, com o primeiro impacto, dirão que não, que acham que estão atualizadas, que acham que dominam todos os critérios da condução. Mas o que é que acontece quando nós depois, e temos essa experiência no ACP com os nossos sócios, quando eles nos procuram? em processos de, digamos que de atualização de conhecimentos, de formação que tem um novo veículo, alguma mudança que surge na legislação, acontece muito uma característica que é no contacto inicial com os nossos serviços a pessoa até tem algumas reticências. Pode haver este impacto inicial, mas nós temos que transmitir isto de uma outra forma, dizer às pessoas que isto é para bem delas e também para bem todos, porque todos nós, em última análise, o que queremos é conduzir de forma mais segura. [00:08:49] Speaker A: E como é que se deve adaptar a condução ao longo da idade? [00:08:53] Speaker C: Há dois ou três pontos que nós devemos sempre transmitir. As pessoas, à medida que vão avançando na idade, e o Dr. Rigo melhor do que eu consegue explicar, vão tendo algumas limitações, por exemplo, na sua capacidade de resistir ao esforço e à fadiga da condução, sobretudo até em períodos noturnos. Em muitos casos, o que nós dizemos à pessoa é, quando pretende fazer uma viagem mais longa, em condições normais, nós dizemos a um condutor que não deve fazer períodos de condução para lá de duas horas. no caso de uma pessoa que tenha uma idade mais avançada. Às vezes é importante ela olhar para isto de outra forma, que é conduzir por períodos mais curtos para garantir que chegue sempre em segurança ao seu destino. Por exemplo, em algumas idades em que as pessoas têm já muita dificuldade com a condução noturna, privilegiarem sempre a condução diurna. Outro conselho que dou é, e exige alguma adaptação, mas é também uma segurança. Existem sistemas às vezes de apoio à condução, nomeadamente os sistemas de navegação, que podem ajudar a que as pessoas se sintam mais confortáveis e não andem numa condução tão sob stress. A pessoa deve fazer uma avaliação consciente das suas competências ao longo da vida, Nós achamos que esta avaliação consciente, que nós respeitamos sempre, tem que estar sempre sujeita e a par da necessária avaliação médica, porque é importante olharmos desta forma. Um clínico, um médico que tem esta responsabilidade, dá um contributo decisivo para a segurança rodoviária, porque se um condutor que vem revalidar o seu título de condução é avaliado, como nós no ACP o fazemos com todo o rigor e cumprindo um plano específico, Essa pessoa, quando sai do nosso serviço, tem a certeza que, dentro do que foi a sua avaliação, mas também dentro do que foi para ser médico, está capacitada para conduzir em segurança. E isto, em última análise, é o que é mais importante. [00:10:46] Speaker A: Doutor Rodrigo, e as avaliações médicas também devem adaptar-se com o passar dos anos? Ou será o conjunto de resultados que define o quadro clínico? [00:10:57] Speaker B: A avaliação médica, a consulta médica, evidentemente não é uma consulta profundíssima no sentido de estar a tentar nós, como médicos, encontrar doenças que a pessoa possa ter. E, portanto, evidentemente que nós temos que, numa primeira fase de conversa e depois numa outra fase da consulta de observação, Temos que ter a capacidade de perceber qual é a situação clínica que, no nosso caso, que esse sócio, esse condutor, tem para guiar em segurança. E, portanto, nós varremos, vamos por assim, um conjunto de doenças que podem estar presentes ou não e que é importante que nós saibamos que efetivamente essa pessoa tem. A diabetes é uma delas, problemas cardíacos, renais, pulmonares, situações neurológicas como a epilepsia em pessoas mais jovens muitas vezes, situações de Parkinson ou de AVC, de trombose cerebral, acontecem, importante, porque deixam sequelas. e essas sequelas podem efetivamente criar grandes dificuldades na condução. E as próprias pessoas hoje em dia, também os serviços de saúde, têm uma capacidade grande para abordar estes temas e recuperar estas pessoas de uma forma bastante boa que apesar de terem tido doenças que são complicadas, mantém a sua capacidade para poder conduzir. Agora nós, como médicos, temos que ter a capacidade de perceber em cada momento o que é. Estamos a ver essa pessoa pela primeira vez, ou então já a conhecemos porque com o tempo que nós temos já o ACP a fazer consultas, muitas vezes as pessoas já voltam ao fim de vários anos, e eu conheço pessoas já há muito tempo que acabam por vir a ter connosco. mas muitas delas são a primeira vez que as observamos. E nessa altura estamos pela primeira vez a tentar perceber o que essa pessoa tem. E se eu tenho alguma dúvida, tenho alguma situação em que preciso de complementar aquilo que a pessoa me diz, ou um familiar me diz, porque é importante também essa situação, Um familiar está muitas vezes mais a perceber como é que essa pessoa está e às vezes até chega a nós antes da pessoa chegar e alerta-nos para determinadas situações. Mas quando isso acontece eu posso pedir informação ao médico clínico-geral ou então a determinados médicos de especialidades, neurologia, cardiologia, que acompanham muito melhor essa pessoa e que são capazes de dizer exatamente o que é que ela tem e também aos próprios darem a noção se há ou não importância para a revalidação da carta de condução. A oftalmologia é também uma das áreas importantes porque a situação da visão e da audição são absolutamente fundamentais para nós conseguimos perceber se a pessoa tem capacidade para conduzir e, portanto, na menor dúvida, nós pedimos, efetivamente, dos médicos, dos meus colegas, que seguem mais de perto estas pessoas. E pronto, elas nessa altura, com base na resposta que vier, eu aí decidirei se efetivamente essa pessoa pode continuar a guiar, deve deixar de guiar, o que é sempre uma situação complexa, difícil de transmitir, mas é importante porque E as pessoas, eu muitas vezes digo, olhe, não fico zangado comigo, não fico zangado comigo, mas na realidade eu acho que é um risco para si e é um risco para os outros, a renovação da carta de condução. E, portanto, as pessoas muitas vezes percebem esta situação e elas próprias interiorizam isso e dizem, sim senhor, eu percebo. Há outras que não perceberão tanto porque vêm com essa ideia de poderem estar. Agora, aquilo há uma coisa também fundamental. As regras, no fim de contas, da renovação da Carta de Condução, têm um conjunto de restrições que nós podemos colocar às pessoas e essas restrições são, podem ir, restrições imensas, desde situações em que deve baixar a velocidade com que ela possa conduzir, até situações em que há problemas de visão noturna e, portanto, não podem conduzir à noite, situações em que as pessoas não podem conduzir em autostradas, situações em que as pessoas não podem conduzir, ou só podem conduzir num limite de 10 ou 20 quilómetros da sua morada, ou então até só podem conduzir, desde que acompanhadas de pessoas com uma carta de condução. [00:15:44] Speaker A: E acha que essas pessoas obedecem? [00:15:46] Speaker B: É evidente que esse é um tema, a obediência ou a não obediência, mas na realidade aí já tem que ficar para a consciência da pessoa, a consciência dos familiares que também sabem que acompanham essa pessoa e sabem que ela tem essas restrições, vamos pôr assim, e o controle que é feito efetivamente pelas brigadas de trânsito e pela situação da polícia, que tem que efetivamente perceber se essa pessoa está conduzida essa maneira ou não. Mas é lógico que a restrição é sempre um tema que pode ser cumprido ou não. [00:16:18] Speaker A: E o Humberto, de certeza que estes casos em que não é fácil convencer a pessoa a deixar o volante, não é? [00:16:26] Speaker C: O Dr. Rodrigo diz-e bem e nós temos aqui no ACP, tanto no processo de documentação onde se inserem os processos de renovação de carta de condução, como também no processo formativo nas escolas de condução, nós temos casos destes, desde pessoas que muitas vezes até têm carta de condução, a carta de condução ainda está válida, mas por algum motivo, como o Dr. Rodrigo diz-e há pouco, Elas tiveram algum problema de saúde e elas próprias têm esta consciência. Olha, vou contactar o ACP, vou pedir ajuda e vou à escola de condução. Nós já tivemos pessoas a quem, os nossos técnicos, após uma aula, portanto, após uma avaliação, eu me recordo de um caso em que o senhor sofria de doença de Parkinson e, portanto, o senhor não conseguia articular a caixa de velocidades. O senhor não tinha articulação. entre o seu membro superior e o membro inferior e o instrutor simpaticamente explicou-lhe que a carta de condução dele estava válida sim senhor mas que ele com aquele quadro não teria condições para conduzir em segurança. A pessoa aceita sim senhor mas pode também muitas vezes, resistir agora. O que nos compete a nós é, eu gosto muito mais de tentar sensibilizar a pessoa. Às vezes até precisamos de chamar a própria família, explicar também à família que é para bem de todos, ou seja, é uma segurança e uma defesa da própria pessoa. Temos também casos de pessoas que não aceitam. Já tivemos até um caso destes muito particular em que a pessoa não teve o seu processo de renovação validado porque o médico achou que ela não tinha condições e a pessoa insistia constantemente junto da escola de condução. para que nós resolvéssemos o problema, lhe déssemos autorização para ela voltar a candidatar-se à carta de condição. E nós explicámos sempre, olha, por muito desagradável que seja, o senhor não tem validação médica. Não tendo validação médica, não pode conduzir em segurança. É um tema difícil, como disse o doutor e muito bem, nunca é agradável transmitir a uma pessoa que ela vai perder essa capacidade, mas a pessoa muitas vezes não tem as mínimas condições, porque se tivesse, e isso é uma garantia da ACP dá, quando numa situação em que manifestamente a pessoa não tem capacidade física, mental ou psicológica para o exercício da condução, que o médico, portanto, a testar isto e não atribuir um certificado médico, está a defender a vida daquele paciente que se lhe apresenta à frente. [00:18:57] Speaker B: E de outros? [00:18:58] Speaker A: E de outros. Doutor Rodrigo, a avaliação dos condutores com idade avançada devia ser feita em períodos mais curtos? [00:19:05] Speaker B: Nós temos essa possibilidade. Portanto, se nós entendermos que numa consulta essa pessoa não deve esperar pelos dois anos, no tempo legal, a partir dos 70 anos, nós temos a possibilidade sempre de antecipar essa consulta para um ano, até para seis meses ou até para três meses. Quer dizer, eu posso colocar exatamente uma situação em que eu vejo que há uma doença progressiva e essa doença progressiva naquele momento ainda não obsta completamente à situação da pessoa ficar sem carta, ficar inapto, mas se a doença progressiva estiver numa fase eventualmente, ou eu precisar de saber qual é a evolução dela mais rapidamente, fica mesmo colocado na revalidação da carta que eu tenho que observar novamente essa pessoa, eu ou outro médico a quem ela vá, três meses depois, ou seis meses depois, ou um ano depois. Portanto, temos sempre essa possibilidade. Agora, evidentemente que há aqui um tema que é muito complicado. Quer dizer, eu tenho pessoas com 90 anos, com uma capacidade imensa de guiar, se tenta com uma capacidade multivalidar, dependendo de doenças, dependendo de situações que existem, e nós temos que tomar essa decisão na altura de renovar a carta de condução ou não. Se me pergunta, não há limite de idade, efetivamente, em Portugal. Há uma idade antes da qual não se pode tirar a carta de condução, mas não há no final da vida. E, portanto, se a pessoa tiver 90 anos, 95 e até 100, e eu já tive pessoas com 100 anos que me apareceram, Como é óbvio. É evidente que as pessoas têm que perceber, e as famílias são muito importantes nestas circunstâncias, para conseguir enquadrar e organizar a pessoa para não vir, não voltar a renovar a carta. Mas mesmo assim, há situações em que as pessoas não ouvem e querem vir. Podem chegar ao pé de mim e dizer, ó senhor, eu já não guio praticamente. Mas eu não queria deixar de ter aquele cartãozinho. Aquele cartãozinho ali ao lado. É claro que eu não posso dizer que não tenha certeza absoluta de se ele vai guiar ou não vai guiar se eu renovar a carta de condução, só para ter isso. Mas é sempre uma situação complicada, porque são pessoas às vezes que estão ótimas de cabeça, não têm nenhuma doença efetiva importante, mas têm uma doença osteoarticular importante. Ou seja, não se movimentam, não andam o suficiente, e o carro são as suas pernas. para ir ao supermercado e para vir do supermercado. E há pessoas destas que vivem sozinhas. E, portanto, claro que hoje em dia temos, na ponta do telefone, temos o supermercado que vem-nos trazer as coisas a casa, mas aquilo bocadinho que a pessoa sai para ir ali e voltar, portanto esta decisão de deixar a pessoa fazer isso ou não, não é fácil. E é uma decisão que pode completamente, quando se diz a uma pessoa, não pode fazer isso mais, não pode sair de casa, não pode ter aquilo que são as suas pernas, a pessoa provavelmente morre mais cedo. E portanto, é um balanço difícil da nossa parte, como médicos, mas acima de tudo temos que zelar pela segurança e, como eu dizia, como dizíamos aqui há bocadinho, é a segurança dele e dos outros. [00:22:42] Speaker A: E o senhor foi justamente ao ponto onde eu queria chegar para encerrar a nossa conversa. Humberto, devia haver uma idade legal para conduzir em Portugal. [00:22:52] Speaker C: difícil impor-nos este limite, porque cada um de nós, independentemente da idade física, apresenta sempre um quadro clínico que pode ser mais ou menos favorável do exercício da condução. O que nós achamos no ACP é que, mais importante do que discutirmos uma idade limite, que eventualmente já existem em alguns contextos, por exemplo, existe uma idade limite a partir da qual um condutor não pode ser mais titular da carta de condução da categoria D, devido aos riscos e à exigência que isso pode envolver. Para o lado disto, nós mais importante do que discutirmos uma idade física, o que nós achamos é que deve haver sempre, e em todo o caso, revalidação de título de condução sempre subjacente a um exame médico. E o que temos que olhar enquanto sistema é garantir que todas as revalidações são sempre sujeitas a um exame médico, A revalidação no exame médico, em princípio, consegue detectar e também despistar, e o doutor já explicou, mesmo que o médico tenha dúvidas, tem meios e tem condições para esclarecer essas dúvidas. Outro aspecto muito importante aqui falado que é o envolvimento das famílias. Quando nós temos famílias envolvidas, também mais facilmente todos percebemos se a pessoa pode ou não revalidar o seu título. Mas eu volto a dizer, mais importante do que uma idade, um limite de idade, fazemos um exame sério e rigoroso a cada pessoa e confiar naturalmente o sistema, a partir desta premissa, que é a pessoa foi avaliada, juntando aquele outro ingrediente que já falámos aqui hoje, que é a necessária atualização de conhecimentos também, a pessoa estará apta para conduzir. Não estando apta para conduzir, e o apelo que eu deixo é muito este, é verdade que a carta de condução muitas vezes é necessária, em muitos casos um bem de primeira necessidade, eu devo abdicar deste direito, nomeadamente após numa consulta me ter sido dito pelo médico, que é uma opinião naturalmente muito válida, porque tem um conhecimento técnico e científico por detrás, que permite que a pessoa também perceba que chegou ao fim desta atividade, numa dada altura em que deixamos algumas coisas para trás e que muito gostávamos. A carta de condução tem que ser também vista desta forma. É de facto importante, mas eu só devo conduzir enquanto eu tiver todas as minhas faculdades capacidades. [00:25:25] Speaker A: Quando não há esse reconhecimento, provavelmente a idade legal máxima poderia acautelar justamente esse tipo de situações ou, pelo contrário, isso iria discriminar? [00:25:39] Speaker B: Eu acho isso um bocadinho, ou seja, tal como eu disse, há pessoas que estão excepcionalmente bem numa idade avançada e outras menos bem. Portanto, isso implica uma avaliação efetiva. É, portanto, tem que haver avaliação. Isso é que não pode deixar de haver de maneira nenhuma, igual, infelizmente, continua com uma sinistralidade Rodoviária é muito, muito, muito importante, mesmo comparativamente a outros países. E, portanto, nós temos que perceber quais são os fatores que levam a isso. Eles estão estudados, eles estão orientados e aquela situação como na Páscoa aconteceu, como todos nós nos lembramos, claro que saiu, como se bem se lembram, uma petição em que não se deveria guiar a partir dos 75 anos, acho eu. É uma opinião efetiva, mas na realidade colocar uma baia numa idade dessas é absolutamente injusta, porque na realidade há um conjunto de pessoas com mais de 75 anos que têm toda a capacidade para guiar, sem dúvida nenhuma, capacidade do ponto de vista clínico e não há problema nenhum para esse aspecto. E se nós fizermos bem as contas, a sinestralidade com a mortalidade não acontece normalmente nessa faixa etária. Acontece em situações muitíssimo mais jovens, entre os 20 e os 40 anos de idade. É aí que há efetivamente um grande decesso de velocidade, há grandes situações complicadas e são pessoas que estão, do ponto de vista de saúde, O problema ali é outro. [00:27:13] Speaker A: Doutor Rodrigo Costa e Silva, no Merck Carvalho, muito obrigado por terem aceitado o nosso convite. Para quem nos acompanha podem seguir-nos no site do ACP, no Spotify e no Apple Podcast.

Other Episodes

Episode 2

April 27, 2023 00:13:59
Episode Cover

Rally de Portugal #2 - Armindo Araújo

Armindo Araújo, bicampeão do Mundo de Produção e campeão nacional em título, fala da qualidade organizativa do WRC Vodafone Rally de Portugal, da sua...

Listen

Episode 105

November 27, 2025 00:35:30
Episode Cover

Entrevista a Pedro Lazarino, líder da Stellantis em Portugal

Pedro Lazarino, managing director da Stellantis Portugal, comenta a estratégia de eletrificação, a falta de políticas para renovar o parque automóvel e o impacto...

Listen

Episode 4

May 11, 2023 00:18:51
Episode Cover

Rally de Portugal #5 - Bernardo Sousa

Bernardo Sousa é o convidado do mais recente podcast do Vodafone Rally de Portugal. Em conversa com Ricardo S. Araújo, o ex-campeão nacional fala...

Listen