Episode Transcript
[00:00:06] Speaker A: Sejam muito bem-vindos a mais um podcast do Automóvel Clube Portugal. Eu sou o Francisco Costa Santos e hoje temos o jornalista João Delfim Tomé para vir comentar o impacto do preço dos combustíveis na venda dos carros elétricos. Não é isso, João?
[00:00:19] Speaker B: É verdade, Francisco. O preço dos combustíveis está a bater recordes. O petróleo, por acaso, ainda não bateu o valor mais alto de sempre na história, mas os combustíveis já. E há quem comece a ver sinais de que o mercado automóvel está a refletir já o aumento de preços combustíveis, nomeadamente na venda de veículos elétricos.
[00:00:36] Speaker A: Pelo que vi, João, desde que começou esta crise, que podemos lhe chamar uma crise, desta subida muito elevada de preços combustíveis, a venda de automóveis novos ou a matriculação de automóveis novos subiu em 22% cá em Portugal.
[00:00:51] Speaker B: É verdade, a venda de veículos elétricos e eletrificados tem vindo a crescer e cresceu bastante desde que começou esta crise e há quem diga que pode estar diretamente ligada ao aumento dos preços combustíveis. Convém ressalvar que Há outros fatores que influenciam a compra de elétricos, nomeadamente benefícios fiscais para as empresas, que é o grosso do mercado automóvel nacional. Há também o fundo ambiental, ou seja, há outros fatores que podem ajudar a explicar este aumento, mas é inegável que o aumento de preços de combustíveis pode ser uma das causas.
[00:01:22] Speaker A: Porque a venda de carros elétricos é inegável, que está cada vez a subir, porque os incentivos trabalham nesse sentido e era o que estávamos a dizer agora mesmo. Agora, associar diretamente uma coisa à outra é que, pelos vistos, está a acontecer aqui de uma forma que pode haver esta relação.
[00:01:36] Speaker B: Sim. Começa a ser notório que pode haver realmente uma relação de causa e efeito. De outro exemplo, na Alemanha, pela primeira vez venderam-se mais carros elétricos do que a gasolina num mês.
E é verdade que a Alemanha repôs novamente apoios à outra vez, esses tais mecanismos de apoio à compra de elétricos, se calhar muitos destes novos consumidores, destes novos clientes, foram também um pouco empurrados para a compra de um elétrico porque veem que a perspectiva do preço dos combustíveis é continuar a aumentar, ou pelo menos que se mantenha alto, e o elétrico permite alguma poupança.
[00:02:06] Speaker A: É claro que quando falamos do aumento dos combustíveis, Ou seja, aumentar 50 cêntimos o combustível, passar para um investimento de 30 ou 40 mil euros para um carro elétrico, muitas vezes pode ser estranho e as pessoas questionarem-se se isto não deve estar diretamente ligado. Mas o que é curioso é que para além da venda de carros elétricos novos, também os usados subiram bastante. E aí sim eu acredito que esta relação, para além de todos os incentivos e de todas as motivações que leva a uma pessoa, a comprar um carro elétrico e que possa ser despertada ainda mais nesta altura em que vivemos estes preços tão elevados do combustível, os carros elétricos usados também são bastante curiosos.
[00:02:49] Speaker B: Sim, é verdade.
Há vários dados que indicam que a procura por usados elétricos aumentou e essa sem dúvida que estará associada ao aumento de preços de combustíveis, porque as pessoas que já estariam a ponderar trocar de carro, se calhar não já, mas daqui por uns meses ou até um ano ou dois, se calhar foram empurradas para esta decisão do género. Se vou mudar, mudo já e consigo poupar algum dinheiro. E num elétrico usado, o custo inicial, o investimento inicial é manifestamente mais baixo, o que permite usufruir da poupança sem ter que fazer aquele investimento tão avoltado logo de início. E é muito provável que os elétricos usados, em particular, mas também os novos, comecem a refletir este aumento dos preços.
[00:03:29] Speaker A: Oh, João, e dizias-me que pela primeira vez na Alemanha se venderam mais carros elétricos do que a combustão. Do que a gasolina, sim. Será esta uma mudança, ou seja, estarão realmente os carros, a gasolina, a perder a importância que têm? Será esta uma situação que não vai voltar atrás? Ou seja, que o carro elétrico conquiste mesmo mais mercado?
[00:03:51] Speaker B: A tendência, pelo menos se tivermos em conta as normas europeias e todas as leis, mesmo com um certo relaxamento, é que esta se torne a norma e não a exceção.
Agora, há que ter em conta que esta maior procura provavelmente vai ser, vai-se refletir quanto mais tempo a crise entre o Irã, os Estados Unidos e os Reais se prolongar. Portanto, quanto mais tempo a crise durar, muito provavelmente mais elétricos vão vender.
Também convém ter em linha de conta que o preço dos combustíveis incentiva as pessoas a procurar novas opções. Alguns optarão pelo elétrico, outros por GPL e outros até por outras soluções de mobilidade, mas sem dúvida que provavelmente Agora é uma exceção, mas vai se tornar uma norma.
[00:04:34] Speaker A: Eu não quero entrar, obviamente tivemos a ver notícias sobre este tema, eu não quero entrar em interiores da conspiração como o facto desta guerra ter sido provocada para aumentar a venda de automóveis elétricos, obviamente não vamos entrar por aí, mas o que é certo é que esta guerra, esta situação, mudou pelo menos a forma das pessoas olharem para os automóveis, mais uma vez, e definitivamente acelerou este processo.
[00:05:00] Speaker B: Esta guerra, eu atrevo-me a dizer que é a crise que há muitos construtores esperavam para impulsionar a venda dos elétricos.
Porque as grandes mudanças ocorrem sempre que há uma crise. É difícil abandonarmos velhos hábitos, não há nada que nos force a fazê-lo. E uma crise como esta, com preços cada vez mais elevados os combustíveis, é a crise ideal para fomentar uma mudança que a maioria das pessoas provavelmente estaria algo reticente a fazer. Até te digo mais, acho que países como o nosso, por exemplo, onde grande parte da eletricidade já provém de fontes renováveis, deveriam até apostar mais nos elétricos sob uma forma não tanto de descarbonização, mas de independência energética. Imagina o que é que era um país como Portugal ou Espanha, que também tem uma grande componente de renováveis no seu bolo geral da eletricidade produzida, terem um parque automóvel cada vez mais eletrificado. Era uma forma de estarmos menos dependentes de países estrangeiros, países produtores de petróleo, e de todas as flutações de um mercado que, como está comprovado, é extremamente voátil.
Portanto, acho que se for bem gerida esta crise, pode criar uma oportunidade, uma oportunidade de fomento à transição energética, de fomento à compra de elétricos. Tem a que se tirar o positivo do negativo, Claro.
[00:06:11] Speaker A: E para além disso, obviamente, dar condições e possibilidades das pessoas terem carros elétricos, porque sabemos bem de utilizações diárias de carros elétricos. Se não tivermos forma de o abastecer em casa ou no trabalho, continua a não ser vantajoso, mesmo com os preços combustíveis aos preços da questão, ter um carro elétrico, porque para além disso tem o custo associado, que falavas há pouco, de comprar o carro, que é um preço bastante elevado, seja ele atualmente, podemos dizer que não é só por ser um carro elétrico, porque comprar um carro atualmente estão sempre, os valores estão muito elevados. No elétrico temos essa questão do abastecimento, que se não for feito em casa ou no trabalho, que se torna Menos prático, menos sustentável, menos lógico.
[00:06:55] Speaker B: E até bastante, por vezes até pode ser custoso. Convém fazer as contas.
Neste momento o ideal é sempre fazer as contas por 100km percorridos. Isso dependendo das condições de carregamento, sempre contando que a pessoa tem de carregar fora de casa ou fora do emprego, O preço por 100km pode andar ela por ela com um veículo a combustão. Convém parar, fazer as contas antes de se avançar para uma compra, mas isto é a norma para a compra de qualquer bem com o valor, voltado como um automóvel, independentemente do combustível que ele consome.
[00:07:25] Speaker A: E para nós que testamos automóveis profissionalmente e para as pessoas que nos ouvem e que são mais apaixonadas por automóveis, a combustão, estaremos realmente a entrar nesta última fase da combustão? Será este um ponto de transição de cada vez menos termos ofertas a combustão e as marcas irem apostar? Porque sabemos que esse dia, mais cedo ou mais tarde, irá acontecer. A questão agora é Será que o privilégio de ter um carro de combustão novo, zero quilómetros, obviamente, porque como sabemos o parque automóvel em Portugal, em especial, é muito envelhecido. Mas quem queira comprar um carro novo, zero quilómetros, será algo em vez de extinção?
[00:08:08] Speaker B: Eu penso que vai depender muito da duração desta crise, como até o FMI refere, que se durar mais de duas semanas a economia recupera, se durar mais de duas semanas pode ser um pouco mais difícil essa recuperação. Vai depender também das medidas tomadas em Bruxelas. Ainda hoje havia referência a uma proposta do governo alemão para reavaliar a União Europeia, reavaliar as normas de emissões, facilitar os motores da combustão, ou seja, prolongar a vida dos motores da combustão no Bloco Europeu, e se assim for, não acredito que eles apareçam por completo. Acho que vão provavelmente ser votados um papel de geradores, de extensores da autonomia. A tecnologia RF, já falámos noutros podcast, isso muito provavelmente vai acontecer.
o motor a combustão puro, e veículos puramente a combustão, muito provavelmente vão acabar por ser votados a um papel de nicho. E a mobilidade normal, urbana ou interurbana será feita com base em híbridos ou híbridos plug-in ou elétricos. No fundo, um mix que até vai ao encontro daquilo que é a utilização usual do combustível.
[00:09:10] Speaker A: E, João, já para nem falarmos dos combustíveis sintéticos, os combustíveis muito mais limpos, que, ao preço a que os combustíveis tradicionais, os combustíveis fósseis que utilizamos normalmente nos nossos automóveis está, portanto, a gasolina a mais de 2€, o gás óleo ainda mais prejudicado, já se aproxima muito desses valores de combustíveis sintéticos.
[00:09:35] Speaker B: Os combustíveis sintéticos hoje, face a esta crise, estão cada vez mais competitivos em termos de preço. É fácil olhar para os poucos postos que ainda os vendem em Portugal e vemos que o preço pessoalmente do diesel renovável e do diesel normal, fóssil, está muito próximo. Portanto, se a outra parte, pronto, chamemos de positiva deste cenário, negativa, o combustível sintético provavelmente vai passar a ser visto como mais uma opção e não apenas uma excentricidade de quem quer experimentar algo.
[00:10:03] Speaker A: Claro que sim. João, acho que temos aqui estes temas do dia abordados. Esperemos, obviamente, que esta guerra não se prolongue e que todas as suas consequências sejam ultrapassadas da melhor forma possível. Muito obrigado a quem nos esteve a ouvir e, já sabem, se quiserem ouvir este ou outros podcast, basta passar no site do Automóvel Clube Portugal, onde temos a secção podcast, e aí sim ouvir, seja no Spotify, seja no Apple Podcast. Muito obrigado.